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Até que o PED nos separe
Por Maria do Rosário*

O PT passa pelo momento mais delicado de sua história. Um momento
difícil, marcado por incertezas e vacilações políticas inaceitáveis.
As incertezas são do decurso natural de um processo como este e será
preciso conviver com elas até que a crise passe e todos os responsáveis,
sem exceção, sejam rigorosamente punidos de acordo com os estatutos
partidários e a Lei. Por outro lado, as vacilações políticas que
colocam em xeque o papel e a importância do PT para a construção de um
Brasil mais justo se constituem em equívocos incomensuráveis do ponto de
vista da oportunidade histórica que a esquerda tem em suas mãos.
No
processo de disputa pela renovação da direção nacional do PT, tenho
assistido manifestações a respeito do partido e do governo Lula que não
possuem a mínima razoabilidade. É preciso sempre salientar que este PED
se realiza, não por causa da crise, mas sim por uma agenda partidária,
definida previamente. Neste sentido, ficam ainda mais estranhas as
manifestações públicas de colegas deputados do auto-intitulado “Bloco
de Esquerda”. Alguns se esforçam para ocupar espaços privilegiados nos
jornais e perseguem seus quinze minutos de fama nos horários nobres das
televisões, pelo simples fato de marcarem data para sair do PT, caso o
resultado da eleição interna não contemple suas posições.
Diante
a esse tipo de postura cabem algumas perguntas: Por que o PT mantém sua
relevância política como um partido que representa os trabalhadores
brasileiros? Por que, mesmo com a crise que passa, os debates internos do
partido têm sido acompanhados por um número surpreendente de militantes,
que lotam teatros e auditórios para manifestar suas opiniões? Por que,
afinal, seguir a luta?
O
PT mantém sua importância porque ele não pertence apenas a alguns que
se assenhorearam de sua direção, realizando uma gestão condenável e
distanciando-se do partido como um todo e, inclusive, da própria base do
propalado “Campo Majoritário, que os fez direção. O PT também não
pertence a intelectuais honestos, mas emburrados, que se consideram acima
de todos e de tudo, nem aos donos da verdade socialista, como se ela
existisse, fosse única e pertencesse a alguns iluminados brasileiros.
Por
mais grave que seja a crise e as baterias se voltem todas contra o nosso
partido, o PT pode sair maior — do ponto de vista ético e político,
mesmo que encolha eleitoralmente — porque ele é um instrumento da
sociedade e dos setores mais explorados que lutam pela transformação
social, política, cultural e econômica de um país marcado por
exclusões e desigualdades. Aliás, é somente recuperando a capacidade de
resposta e atuação do PT que podemos cumprir através do governo Lula o
compromisso que assumimos com o país ao conquistarmos o governo, salvando
a oportunidade quase que única de mudar o Brasil.
É
quase unanimidade a autocrítica que, no passado recente, o PT, pela
condução equivocada de sua direção, errou ao confundir sua pauta com a
pauta do governo. O programa do partido foi rebaixado às possibilidades
de um governo de coalizão de centro-esquerda e foi embalado pela falsa
mística dos marqueteiros.
Ao
invés de defender um amplo programa de reforma agrária e urbana, de
defender uma política econômica que, de fato, combata às desigualdades,
o PT se limitou a compreender as dificuldades do governo e defender as
pequenas conquistas alcançadas. Com isso, desde 2003, o partido vem
perdendo capacidade de diálogo junto aos movimentos sociais e populares e
legitimidade para propor mudanças de rumo para o governo Lula. Não é de
se admirar que as pesquisas de opinião apontem restrições cada vez
maiores ao partido. Mais recentemente, mesmo com seu notório apelo
popular, comprovado em cada lugar por onde passa, o próprio presidente
Lula sofre abalos em sua imagem.
Para
superar a crise o PT precisa se reaproximar dos movimentos que tem tido
coerência e responsabilidade ao defender Lula e combater a corrupção. O
PT precisa reencontrar sua base social e, com ela, retomar sua autonomia
em relação ao governo propondo a efetivação da transição para outro
modelo de desenvolvimento. Ao mesmo tempo, o partido deve organizar uma
reação aos ataques da oposição liberal conservadora que objetivam
desestabilizar o governo Lula e destruir o PT.
Então,
diante das importantes tarefas descritas acima, há espaço para
vacilação do “Bloco de Esquerda” do PT? Não! É hora de solidificar
uma unidade interna que se proponha a superar o hegemonismo do Campo
Majoritário para que o PT recupere o seu papel político na construção
de um outro país. É hora de defender o governo Lula porque este é o
nosso governo, por mais dificuldades que ele tenha. Porque a sucessão
será disputada contra um bloco de forças da direita, capitaneado pelo
PSDB e PFL. Essa é a oportunidade que a história nos deu e
desperdiçá-la seria um crime.
Marcar
uma data para sair do PT e, por uma incrível coincidência, atrelá-la ao
calendário eleitoral, permitindo que os que abandonem o barco petista
possam se salvaguardar em outras siglas do mercado político, é nivelar
por baixo o debate e cobrir com o véu do eleitoralismo as análises
respeitáveis, as propostas corretas e as severas críticas que poderão,
mantendo seus autores dentro da sigla, nos ajudar, em muito, para a
necessária correção de rumos.
Agora,
se setores da esquerda petista querem o divórcio e gritam aos quatro
ventos, “até que o PED nos separe”, só nos resta gritar mais alto e
insistir na pergunta, reiterando a resposta. Pra que PT? Pra continuar
lutando com o povo brasileiro e outras organizações populares e de
esquerda, pra realizar os sonhos de diversas gerações que acreditaram
ser possível fazer diferente.
E
esse foi um sonho sonhado coletivamente. Hoje é fácil, pra não exagerar
e dizer covarde, simplesmente atirar pedras. Mas, como exemplo e sem
prejuízo para as apurações e as necessárias penalidades futuras, esse
sonho é tanto de Plínio Arruda, quanto de José Genoino. É tanto de
Cristovam Buarque, quanto de José Dirceu. É de todas as marias e joões;
é do campo e da cidade; é de todos os brasis desiguais que deságuam
neste país Brasil que ainda haveremos – com o PT, sim senhores –
transformar, de fato, em uma Nação justa, soberana e socialista.
Isso,
além de possível, é uma necessidade política e um compromisso
histórico. Portanto, agora, quando a luta está mais difícil de ser
travada, mais do que nunca, o PT precisa de todos e de todas. Eu espero
que o PED não nos separe.
*Maria do Rosário é deputada federal (PT-RS) e candidata à presidência Nacional do PT
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