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CARTILHA
Orientações e dicas
Sobre o tema
Juventude
nas eleições municipais
SUMÁRIO
Apresentação...............................................................................3
Introdução.................................................................................4
O que justifica a importância do
tema juventude? ...............................5
Como
envolver os jovens na campanha?.............................................7
Sugestões de propostas para o
programa de governo...........................9
Sugestões de leitura
..................................................................11
Sítios ùteis...............................................................................12
Anexos....................................................................................
13
APRESENTAÇÃO
Esta
cartilha tem por objetivo instrumentalizar tanto as candidaturas quanto suas
coordenações de campanha sobre o tema juventude.
Através
de orientações e dicas pretende-se fornecer um conjunto de informações básicas
aos candidatos, que garantam a familiarização com o tema e possibilitem o diálogo
franco e sem receios com essa significativa parcela do eleitorado.
As informações sistematizadas nesta cartilha são o resultado da Oficina "Capacitação das candidaturas majoritárias e proporcionais sobre o tema Juventude", realizada em 28 municípios do estado de santa Catarina no período de 3 a 18 de Julho de 2004.
Secretaria
de Juventude do PT/SC
INTRODUÇÃO
A participação da juventude no processo eleitoral
é um fator preponderante para o desempenho das candidaturas proporcionais e
majoritárias. O vigor e a disposição dos jovens contaminam os militantes e
empolgam a campanha.
Entretanto, é preciso destacar, que a participação
da juventude não deve se restringir a uma contribuição somente nas
“tarefas” mas, sobretudo, deve-se ampliar essa contribuição para a elaboração
e a tomada de decisões.
No atual processo eleitoral, os jovens representam um
contingente significativo de eleitores. Em média 21% do colégio eleitoral dos
municípios são jovens (16 a 24 anos), se for considerada a faixa etária de 16
a 34 anos a média sobe para 44% dos aptos a votar. Por isso, é importante que
as coordenações de campanha estejam constantemente preocupadas em envolver os
jovens.
Além disso, a temática juventude tem sido pauta na
conjuntura nacional como uma preocupação estratégica para os governos. Pois,
atualmente, vivemos o pico populacional juvenil no país e essa relevante
parcela da população (Brasil – 20,07% na faixa de 15 a 24 anos e 28% na
faixa de 15 a 29 anos) tem sido a mais vulnerável à exclusão social, sendo
campeã nos índices de precárias condições de vida.
As administrações municipais do campo democrático
popular, em específico no estado de Santa Catarina, produziram avanços
expressivos na melhoria das condições de vida de toda a população,
principalmente, através de políticas públicas nas áreas de educação, saúde,
agricultura, assistência social e habitação.
Contudo, apesar dessas políticas atingirem, também,
a população jovem, a demanda por políticas públicas que atendam as
necessidades específicas da juventude ainda é significativa.
Mesmo, com o êxito das ações, nas administrações
onde foram implementados órgãos específicos (assessorias ou coordenadorias)
de políticas públicas para a juventude, os novos desafios colocados pela evolução
do debate nacionalmente ampliam a importância desta temática nos governos.
Portanto,
não só pela capacidade que a juventude tem de transformar positivamente a
campanha, mas, fundamentalmente, pela importância que o tema tem assumido na
conjuntura dos problemas sociais é que acreditamos que esta temática será um
diferencial não só nas eleições em Santa Catarina, mas em todo o país.
Assim, o PT deve priorizar a juventude, como tema, na sua pauta política e
consequentemente torna-la mais uma marca do modo petista de governar.
O
QUE JUSTIFICA A IMPORTÂNCIA DO TEMA JUVENTUDE?
Os dados estatísticos revelam que:
-
A população jovem brasileira (de 15 a 24 anos) passou de
8,2 milhões em 1940 para 34 milhões em 2000, correspondendo, hoje, a 20,07% da
população total (IBGE).
-
Na faixa de 15 a 29 são 48 milhões de jovens, 28% da
população brasileira (IBGE, 2000).
-
O Brasil é o 5º país do mundo no volume de jovens na
população (depois de China, Índia, Indonésia e EUA), e é responsável por
50% dos jovens da América Latina e 80% do Cone Sul.
-
Mais de 85% da juventude do mundo vive, hoje, nos países
em desenvolvimento.
-
2000 a 2010 foi considerada a década da população jovem
mundial pela ONU.
Além
desses dados, é importante observar que estamos vivendo a chamada “onda
jovem”, isto é, o alargamento da pirâmide etária brasileira nas faixas
entre 15 a 24 anos de idade. Este fenômeno é decorrência da dinâmica demográfica
de décadas passadas, relacionada principalmente a uma alta taxa de fecundidade.
No
final da década de 70 e início da década de 80 houve um grande número de
nascimentos. Este fenômeno populacional aumentou a exclusão já existente e
aprofundou a crise do Estado, que não consegue amparar todos os cidadãos.
A
conseqüência desse processo é o agravamento da falta de educação, saúde,
emprego, acesso à cultura ao lazer e ao esporte e outros, e que atingem,
principalmente, o contigente populacional jovem.
2. Exclusão Social
O
segundo motivo que justifica discutir juventude é o fato dessa parcela da
população sofrer mais drasticamente as conseqüências da exclusão social.
A
ausência histórica do Estado em assistir essa população também é outro
agravante da precariedade da condição juvenil.
A
prova desta condição de exclusão é apontada nos seguintes dados:
A
partir dessas informações, podemos concluir, que os jovens são, hoje, a
parcela da população mais vulnerável à pobreza e a menos protegida pelos
direitos fundamentais.
A
conseqüência direta destas estatísticas é apontada numa pesquisa mundial
realizada pela ONU - Organização das Nações Unidas, através da Unicef, em
1999.
O
estudo demonstra que a juventude brasileira é a segunda no ranking do
pessimismo, ficando atrás somente da juventude da Colômbia.
Esta
constatação revela que de cada 10 jovens brasileiros 7 acreditam que terão
piores condições de vida e trabalho que seus pais.
Por
esses motivos é que se torna urgente pautarmos esse tema e, a partir disso,
começarmos a construir alternativas para devolver a essa parcela da população
a esperança.
A
construção de alternativas, através de políticas públicas, que garantam o
bem estar dos jovens - direito fundamental enquanto cidadãos – que atendam às
necessidades específicas e, ainda, que possibilitem a preparação dessa geração
para assumir o país é uma tarefa imediata da sociedade e dos governos.
3.
Estratégia para o Desenvolvimento
Para
construir o desenvolvimento tão sonhado pelos brasileiros, precisamos preparar
essa geração de jovens que em breve assumirá os destinos deste país.
Para
preparar a juventude é preciso garantir condições mínimas de vida e,
simultaneamente, proporcionar o acesso a uma formação integral (não só técnica
instrumental) sem esses pressupostos não teremos uma geração capaz de dar
continuidade aos avanços sociais e econômicos que o país necessita.
As
contradições e os desafios que se colocam para essa nova geração tem um
tempo próprio para serem enfrentados. E o tempo é hoje. Amanhã essas ações
não terão mais efetividade. Não agir hoje resultará num risco de retrocesso
para o desenvolvimento da nação. Pois os jovens de agora sem condições serão
os adultos incapazes do futuro.
Por
isso, a implementação de políticas que garantam aos jovens condições de se
desenvolverem é um elemento urgente e fundamental da estratégia de
desenvolvimento.
Certamente
quando os jovens tem oportunidades eles, além de estarem preparados para os
desafios futuros, se tornam uma força essencial no processo de transformações
e na conquista de melhorias para a sociedade.
COMO
ENVOLVER OS JOVENS NA CAMPANHA?
Sabemos
que esta é uma tarefa difícil. Entretanto, também, sabemos que é uma tarefa
possível e se for realizada potencializa não só a candidatura mas o diálogo
com os jovens em geral e a construção partidária futura.
A
idéia aqui é sugerir às coordenações de campanha um roteiro com dicas de
organização e de ações que podem facilitar o processo de envolvimento dos
jovens.
Esta
sugestão de roteiro, também, se adequa as campanhas proporcionais. O roteiro
está dividido em quatro passos, todavia não é nenhuma receita de bolo e por
isso deve ser adaptado as condições políticas do processo eleitoral e a
realidade do município.
1º PASSO (Preparação)
a)
Formar um grupo de jovens que assuma o trabalho
sobre juventude na campanha.
-
O grupo não precisa de número de participantes
predeterminado. O importante, independente da quantidade, é que o grupo exista.
-
É importante que os grupos da candidatura majoritária e
das candidaturas proporcionais tenham relação e definam ações comuns.
b)
O grupo deve definir um representante que deve ser
incorporado a coordenação geral da campanha.
-
Esta ação é importante para possibilitar o entrosamento
e a sintonia da campanha jovem com a campanha geral.
c)
O grupo deve realizar reuniões de preparação
antes de iniciar o trabalho.
1.
Reunião de Organização Interna
-
Definição
do plano de trabalho e cronograma de atividades do grupo.
2.
Reunião de Nivelamento
-
O grupo
de jovens deve, coletivamente, se apropriar dos debates atuais sobre o tema
juventude.
-
Além
disso, os jovens do grupo devem unificar tanto a compreensão quanto o discurso
de campanha sobre juventude.
-
Para
isso, o grupo deve fazer uma discussão sobre definição e conceituação de
juventude (O que é juventude? O que são Políticas Públicas? Quais podem ser
as políticas de juventude?). Sugerimos para o trabalho dois textos que estão
em anexo: 1) O PT e a Juventude: Política
e Concepção e 2) Diagnóstico da Juventude Brasileira.
3.
Reunião de sistematização de dados sobre a juventude do município
-
Elaboração
de documento com síntese dos dados mais significativos sobre a juventude do
município.
-
Este
documento será importante como subsídio para os ajustes da tática eleitoral e
para os discursos de campanha dos candidatos.
2º PASSO (Articulação e construção das
propostas para o programa de governo)
a)
O grupo deve agendar com as diversas tribos de
jovens do município (jovens da igreja, jovens de grupos culturais, jovens
esportistas, jovens de bandas de música, jovens da roça e etc.) reuniões para
discutir propostas para o programa de governo.
-
Pela nossa experiência é mais produtivo a realização de
reuniões setoriais (com cada tribo).
-
Nessas reuniões pode se discutir tanto as propostas específicas
para os jovens quanto as propostas gerais para o município.
-
Essa atividade cumpre três objetivos: 1) construção
democrática do programa de governo, 2) articulação de apoios para a campanha
e 3) divulgação e propaganda da candidatura.
b)
Posteriormente a conclusão das reuniões setoriais
o grupo deve realizar uma reunião para sistematização das propostas
recolhidas para o Programa de Governo.
c)
Depois de pronto, o documento de propostas para a
juventude deve ser divulgado das mais diversas formas (panfletagem, atividade de
lançamento das propostas, programa específico de TV e rádio, etc.)
3º PASSO (Campanha na rua)
a)
O grupo deve fazer uma agenda de atividades de rua (bandeiraços,
panfletagens, visitas às escolas, visitas nos pontos de encontro da juventude,
visita aos bares, visitas as residências, etc.)
SUGESTÕES
DE PROPOSTAS PARA O PROGRAMA DE GOVERNO
As propostas sugeridas visam estimular o debate sobre
as alternativas para os jovens do município. A idéia é ajudar na formulação
do programa de governo através de algumas propostas síntese que balizam questões centrais, hoje, no debate
sobre juventude.
Por isso, as sugestões apresentadas, além de
analisadas e discutidas, devem ser adaptadas à realidade local.
As propostas se dividem em 3 eixos: Participação,
Espaço institucional e Espaço público de desenvolvimento do jovem.
PARTICIPAÇÃO
Uma das questões que dificultam a construção de
políticas para a juventude é a falta de canais de diálogo do poder público
com os jovens. Essa falta de interação é conseqüência de vários fatores
dentre eles o descaso, implícito, que existe na sociedade em relação a opinião
dos jovens.
A experiência em administrações municipais, tem
nos demostrado que os jovens tem opinião e vontade de contribuir, mas não
existem meios institucionalizados para essa participação. Entretanto, quando
existe alguma iniciativa do poder público a resposta da juventude é sempre
significativa e repercute não só no meio dos jovens mas em toda a sociedade do
município.
Por isso, uma administração do campo democrático
popular, além de ampliar os espaços de interlocução e participação da
população nos processos de decisão do governo, deve garantir canais específicos
de participação para a juventude.
As formas de participação podem ser as mais
diversas, o importante é que elas sejam definidas coletivamente e expressas
através de propostas no programa de governo.
Além disso, é preciso ressaltar que, por se tratar
de uma campanha eleitoral, as propostas devem ser objetivas de maneira a
ilustrar sinteticamente uma alternativa de solução viável sobre a questão.
Nesse sentido, acreditamos que uma forma de
materializar a questão da participação da juventude nos programas de governo
seria através da proposta de realização de uma CONFERÊNCIA MUNICIPAL DE JUVENTUDE, convocada e organizada pela
prefeitura em parceria com os jovens.
Essa proposta expressa a intenção e a prática
democrática da candidatura. Também, sinaliza concretamente para os jovens
demostrando a importância que essa parcela da população terá no governo. Mas
não encerra a questão da participação para os jovens.
Por isso o candidato precisa reforçar nos seus
discursos, nas suas falas com grupos ou individualmente que no seu governo a
juventude terá portas abertas para
aperfeiçoar ou construir outras formas de participação na administração do
município.
ESPAÇO
INSTITUCIONAL
Além dos canais de participação, a juventude
precisa ser encarada pela administração municipal como uma política pública
importante no governo. Essa importância só se concretiza se a política de
juventude for institucionalizada, através de um espaço na estrutura da
prefeitura.
Por isso, acreditamos que é necessária a proposta
de CRIAÇÃO DE UM ÓRGÃO DE JUVENTUDE
na estrutura da prefeitura. Independente da forma administrativa que ele assuma
(secretaria, assessoria, coordenadoria, diretoria, etc.) o importante é que ele
tenha força e peso político para implementar com efetividade as políticas públicas
de juventude.
ESPAÇO
PÚBLICO DE DESENVOLVIMENTO DO JOVEM
Uma das maiores dificuldades dos jovens, hoje, é a
falta de espaços que possibilitem a sua integração social, o seu
desenvolvimento integral e garantia de acesso aos bens culturais e ao lazer.
A experiência tem nos demonstrado que a maior
reclamação dos jovens nos municípios de médio e pequeno porte é não
encontrar estrutura, na cidade e no campo, para a realização de atividades de
integração e nem sequer para a prática desportiva.
Além da falta de espaço e infra estrutura, necessária
para atender a demanda dos jovens, na maioria dos casos as estruturas de cultura
e lazer são privadas e, portanto, só acessível para aqueles que tem condições
financeiras.
Por isso, acreditamos que é fundamental para as
candidaturas do campo democrático popular a defesa de políticas públicas de
juventude que garantam de forma pública e irrestrita aos jovens o acesso aos
bens culturais, desportivos e de lazer.
A forma de materializar essa disposição de ação
no governo seria através da proposta de garantia de um CENTRO DE CONVIVÊNCIA. Esse centro seria um espaço, construído
ou aproveitado, que possibilitaria de maneira pública e gratuita aos jovens o
acesso a cursos ou oficinas de capacitação no campo profissional ou cultural,
a infra estrutura para o desenvolvimento de atividades culturais ou de integração
e ainda a possibilidade dos jovens se encontrarem, se reunirem ou se organizarem
na diversidade e na pluralidade que existe nos movimentos (tribos) juvenis.
Por fim é preciso destacar que esse Centro de Convivência
tem na sua concepção três pressupostos para a sua implementação, são eles:
a garantia de gratuidade em todas as atividades realizadas no centro - pois a
maioria da juventude não tem dinheiro e qualquer taxa excluiria a participação
de muitos jovens; a garantia de fluxo de deslocamento para o centro de convivência
- pois se o acesso ao local do centro for difícil e distante isso também
excluiria muitos jovens; e a gestão do espaço por um coletivos de jovens em
parceria com o poder público.
Sugestões
de leitura
Sugerimos alguns textos, que seguem anexados a cartilha, para apoiar o
desenvolvimento do trabalho de organização da campanha e elaboração sobre o
tema juventude.
Os textos anexados e o conteúdo desta cartilha
apenas ajudam e orientam o trabalho com juventude. Entretanto, o aprendizado e a
desenvoltura com o tema só são adquiridos com a vivência e o árduo trabalho
de percepção da condição específica dos jovens.
É preciso sensibilidade para escutar e constituir um
diálogo com as juventudes. Mas, sem dúvida, os ganhos que se tem quando se
investe nesta parcela da população são muito valiosos para o desenvolvimento
humano do município.
Os textos sugeridos abordam a questão da juventude
de variadas formas, contudo todos são úteis para o período das eleições,
porque instrumentalizam o discurso e a capacidade de agir com a juventude.
Seguem anexados os seguintes textos:
1. O PT e a
Juventude: POLÍTICA E CONCEPÇÃO
Por Paulo Denisar Fraga
2. Juventude
Brasileira: Diagnóstico (parte extraída do documento final do Projeto Juventude)
Por Projeto Juventude do Instituto Cidadania
3. Carta à
Juventude Brasileira
Por Cláudio Vignatti (Deputado Federal PT-SC)
4. Juventude em
Pauta
(Discurso proferido no grande expediente do plenário da Câmara dos Deputados)
Por Cláudio Vignatti (Deputado Federal PT-SC)
5. Juventude e
Estado: Direitos e Política Nacional
Por Cláudio Vignatti (Deputado Federal PT-SC)
6.
Plano de Trabalho da Comissão Eleitoral de Juventude de Chapecó
(Roteiro e cronograma de ação do grupo de jovens da campanha para prefeitura
de Cahpecó)
Por Juventude do PT de Chapecó/SC
7. Juventude em
Pauta em no Parlamento (Cartilha de como iniciar o debate de juventude no parlamento)
Por José Ricardo Bianco Fonseca
SÍTIOS
ÚTEIS
¿
temprárias
¿
ESPECIAIS - em funcionamento - demais
¿ POLÍTICAS
PÚBLICAS PARA A JUVENTUDE
www.prefeitura.sp.gov.br/cidadania/conselhosecoordenadorias/coordenadoria_juventude
anexos
TEXTO
I
O PT e a Juventude: Política e Concepção
Por Paulo Denisar Fraga
Apresentação, nove anos depois
Este
texto, como registra a datação ao seu final, foi escrito há quase uma década.
Escrevi-o num tempo em que, como disse Marx certa vez, me orientava mais pelo
desejo de ir à frente do que pelo conhecimento efetivo. Trata-se de um texto
redigido rapidamente, sem maiores cuidados e pretensões, para compor uma tese
de encontro partidário. Reconheço hoje que nele o estilo estético se confunde
com um arrazoado de tom excessivamente romântico. Nele há, também, certas
passagens secundárias - isto é, que não atingem o centro das teses mais específicas
sobre o juvenil - que posteriormente considerei superadas ou carentes de uma
reformulação mais rigorosa. Razões pelas quais jamais o publiquei, nem mesmo
o fotocopiei para circulação pública entre militantes, o que não impediu que
muitos companheiros - de várias correntes e movimentos - o fizessem, no RS
(especialmente no trabalho da Secretaria Estadual de Juventude do PT) e noutros
lugares do Brasil. Contudo, neste momento, cedo finalmente à opinião de alguns
desses jovens companheiros, que me convenceram de que valeria a pena circular de
novo o texto, a título de preservá-lo para a história da juventude do PT.
Apresentado,
por militantes da antiga Articulação (que logo após comporiam o HV-Articulação
de Esquerda), como tese de concepção de juventude, ao II Encontro Estadual da
Juventude do PT/RS (POA, 30.jul. a 01.ago.1993), o texto obteve notável aceitação.
Tornou-se resolução unanimemente, por todos os filiados e correntes políticas
presentes ao encontro, que reuniu mais de cem delegados, na proporção de cinco
para um na base, número importante à época, embora pequeno comparado aos
encontros de hoje. Apesar das ressalvas acima, neste pequeno texto está o núcleo
de algumas teses críticas certeiras que orientaram e foram decisivas para a
construção do movimento de juventude do PT gaúcho, que só se efetivou a
partir desse II Encontro, organizando atualmente milhares de jovens.
O
seu mérito, para a história nacional da juventude do PT, é ter ele sido, em
1993, um texto pioneiro, em que os próprios jovens expressaram, pública e
coletivamente, pela primeira vez, para si e para o partido, uma formulação política
e teórica que tomou de frente a crítica do modo como a cultura petista vinha
tratando a questão da juventude. Onde chegou, foi uma espécie de grito de
independência. De posse desse discernimento fortemente crítico, o setor
juvenil capacitou-se para se auto-organizar, num tempo em que os dirigentes, com
honrosas, mas raras exceções, ignoravam completamente o lugar e a importância
disso, inclusive dentro das próprias correntes nas quais esses jovens
militavam. Contra o atraso de concepções instrumentais sobre a juventude, que
até hoje grassam nas fileiras do PT, o seguimento juvenil lutou, muitas vezes
polêmica e solitariamente, por sua construção organizada. Onde logrou efetivá-la,
o fez por sua própria clareza, convicção e esforço, sem dever nada a ninguém,
muito menos a resoluções políticas "de cima". Se no RS o movimento
de juventude partidária alcançou um extraordinário desenvolvimento - tanto
quantitativo quanto qualitativo -, é porque os jovens fizeram deste um objetivo
comum, acima das diferenças entre correntes, coisa nem sempre vista na esfera
nacional, onde o temor de alguns - de que esse movimento favorecesse a esquerda
partidária - muitas vezes recomendou a cautela, quando não a indiferença ou o
boicote.
Afora
esta "Apresentação", e algumas correções técnicas nas notas de
citações, mantenho o texto tal como foi apresentado no II Encontro gaúcho,
sem revisões de conteúdo. O título, acima, é também o mesmo. Posso escrever
outro texto, mas não mudar este que, desde o encontro de 1993, é patrimônio
coletivo de toda a juventude do PT.
Registro,
contudo, por questão de justiça que, das primeiras discussões que inspiraram
este texto, fizeram parte, à época, três valorosos companheiros: Eleandra
Raquel Silva, Francisco Xarão e Raquel Vercelino. Também às conversas com Anísio
Pires, do Jenscet, este texto deve em seu elã, muito embora o nome dele deva
ser totalmente isento dos limites do que se escreveu aqui como síntese possível
do acúmulo que tínhamos naquele momento.
Ijuí,
RS, maio de 2002.
"Assumira a luta como arte
(...). Interessava-lhe a política como meio de partilha do pão e da felicidade
da vida. Sabia que além da fome de pão - cruel mas saciável - havia a de
beleza, voraz e infindável. Estava trespassado pelo estigma dos que querem
reinventar o mundo" (Frei Betto, O dia de Ângelo).
O
debate sobre a juventude e o PT deve ir muito além da mera definição de táticas
para atrair os jovens para o partido. É uma discussão que deve abordar,
diferentemente, que tipo de relação o partido estabelece com os jovens nele
filiados e como esta juventude deve ser compreendida.
O
PT é um partido socialista, concebido como um ente político que formula e
apresenta propostas para a sociedade. É um partido que opera na cultura política
nacional uma disputa de hegemonia, entendida como meio democrático para a
construção de um futuro socialista. Enfim, o PT é, na sua práxis política,
um partido educador, mas com a clareza dialética de que o educador também é
educado, como sugeriu Marx na sua terceira Tese sobre Feuerbach. A juventude,
por sua vez, tem uma importância estratégica na construção de um partido
popular e socialista como o PT, assim como tem e teve, historicamente, para os
demais partidos revolucionários. Num comentário sobre a Revolução Russa,
Trotsky disse o seguinte: "O bolchevismo, na ilegalidade, foi sempre o
partido dos jovens operários. Os mencheviques apoiavam-se sobre os meios
superiores e mais idosos da classe operária, não sem tirar disso um certo
orgulho e olhar do alto os bolcheviques. Os acontecimentos mostraram
impiedosamente o erro que cometiam: no momento decisivo a juventude arrastou os
homens amadurecidos e até os velhos" (TROTSKY, L. "A Luta contra a
juventude". In: BRITTO, S. (org.). Sociologia
da juventude IV: os movimentos juvenis. RJ:
Zahar, 1968, p. 31).
No
Brasil isso também não é diferente. Nos anos 60 os jovens eram a vanguarda
das lutas sociais e, mesmo a partir do final da década de 70, quando os
trabalhadores ascenderam ao cenário político nacional pelo Novo Sindicalismo,
os jovens não deixaram de ser a presença mais marcante em grandes mobilizações
como as campanhas pelas Diretas Já!, de Lula Presidente e do Fora Collor. No
entanto, isto não pode autorizar, eticamente, qualquer partido a desenvolver
uma política instrumental para a juventude. Na Revolução Russa, em seu famoso
Discurso para a juventude, pronunciado no III Congresso da União das Juventudes
Comunistas da Rússia (em 02.out.1920), Lênin falou o tempo todo sobre as
tarefas da juventude no processo de defesa da revolução. Temas como a
sexualidade, a afetividade, dentre outros, passaram à margem do discurso do
grande revolucionário bolchevique.
Aliás,
vale anotar que, comentando o pensamento de Freud para Clara Zetkin, Lênin
disse: "A teoria de Freud é também agora uma espécie de capricho que está
em voga. (...) Eu não confio em quem está constante e decididamente absorvido
pelos problemas sexuais, como um faquir índio pela contemplação do seu
umbigo. (...) No partido, no seio do proletariado com consciência de classe e
combativo, não há lugar para isso" (LÊNIN, V. I. Sobre a emancipação
da mulher. SP: Alfa-Omega, 1980, p. 103-104). É lógico que o pensamento tem
sempre que ser contextualizado no seu tempo histórico-social. Mas se Lênin não
poderia ter falado de algumas coisas que ainda não estavam postas para a sua época,
por outro lado, não se deve esquecer que a mesma juventude que o ouvia, na sua
maturidade construiu a gigantesca burocracia soviética, emperrada em si mesma.
E
o PT, a quantas anda em sua relação com a juventude? O Boletim n° 7 e 8 da
SNJ/PT, de jan./fev.1992 traz, em sua terceira página, um dado alarmante:
"Foi verificado que cerca de 99% dos jovens filiados ao partido não estão
participando de instâncias partidárias de juventude (...)". Mas o que
estará havendo, então, num partido cuja base social é repleta de jovens? A
resposta é simples: o PT não tem uma política adequada para tratar a questão
da juventude. Esta crítica significa afirmar que um partido moderno e
verdadeiramente revolucionário não pode prescindir de uma política para a
juventude. Porém, ter políticas para a juventude não significa apenas definir
táticas com o único objetivo de ganhar a juventude para suas fileiras, para
reproduzir, através dela, a disputa de entidades estudantis, como faz, por
exemplo, a UJS do PCdoB.
Para
muito além deste objetivo mercantilista, adotar uma política para a juventude
significa trabalhar com a necessidade de uma visão ampla, capaz de pautar, no
cotidiano partidário, o enfrentamento de questões cruciais que englobam toda a
complexidade da riqueza que representa esse seguimento. Qualquer partido que não
realize isso acaba por reproduzir, conscientemente ou não, uma postura utilitária
em relação aos jovens, que só lhe servem como entes privilegiados para a
reprodução de políticas globais. Como disse Eugênio Bucci, "quase todas
as políticas para a juventude apresentadas pela esquerda se resumem, em grande
medida, a táticas mercadológicas para atrair a juventude para a área de influência
do partido e depois instrumentalizá-la" (BUCCI, E. "Loucura e
mistificação: a juventude que perdi". Teoria & Debate. SP, n° 10,
1990, p. 37). E se alguém disser que o PT desenvolveu compreensões e práticas
suficientes que possam lhe isentar de uma crítica como esta, é preciso
replicar, infelizmente, que não é verdade.
O
PT, historicamente influenciado por sua origem operário-popular, tem
negligenciado a problemática da juventude. O PT tem se preocupado em conquistar
a juventude para que ela leve adiante as suas políticas globais. Afinal, são
os jovens que têm mais tempo e disposição para realizar o tarefismo diário
do partido. Quem é que vai pixar, colar cartazes, panfletear, senão maciçamente
a juventude petista? Isso se explica, em parte, por uma visão insuficiente da
esquerda brasileira em relação ao fenômeno humano-social da juventude. Como
no Brasil a juventude tem-se envolvido como atriz principal na defesa de grandes
bandeiras democráticas, a esquerda criou a idéia superficial de que a
juventude é meio que "naturalmente" progressista e, então, o negócio
é trazê-la, com este potencial, para o partido A ou B. Mas por que será que a
juventude, na Alemanha, cerrou fileiras constituindo um pilar fundamental do
nazismo? Teria ela sofrido um desvio de sua "natureza ideológica"?
Por que os jovens, nos grandes países europeus e nos EUA, se dividem em gangues
e encontram na violência uma nova forma de "diversão"? Seria isso
explicável pelo processo de barbarização social promovido pelo capitalismo?
Em parte, é claro que sim. Mas, e a juventude "progressista" do
Brasil não vive num país que é um verdadeiro quintal das conseqüências
dessa barbárie?
Nada
há de errado no empenho da juventude. O erro está na linha política sob a
qual o partido tem tomado este problema que, na prática, em plena década de
1990, assemelha-se à maneira como Lênin o tomava na década de 1920. Qual é a
ótica disso tudo? A ótica parece ser a seguinte: o problema central da política
é a luta do trabalho contra o capital. Superada esta contradição, efetivadas
as transformações político-econômicas na sociedade, resolver-se-ão, mais
cedo ou mais tarde, todos os problemas da população. Como a juventude também
é população, resolver-se-ão também os seus. Nem de perto, portanto, se
aborda, concretamente, a problemática existencial do indivíduo, este ente
particular, verdadeiro intruso para a esquerda, em cuja indiferença fundaram-se
as ruínas do Leste Europeu. Isso leva a perguntar: será que a reforma agrária
resolverá por si só todos os problemas existenciais do jovem do campo? Será
que uma boa política salarial resolverá os do jovem trabalhador? Será que um
bom trabalho resolverá os do jovem desempregado? Será que uma boa educação
resolverá os do jovem estudante? Ou, diferentemente: será que esses indivíduos,
enquanto seres sociais, não guardam uma problemática existencial maior do que
aquela que pode ser resolvida pela economia e pela política? É válido
lembrar, por exemplo, que na ex-URSS, até o fim do socialismo as mulheres
esperaram pelo "laçaço redentor" da infra-estrutura sobre a
superestrutura para a superação do machismo.
Porém,
ao que parece, o domador acabou por perder os braços sem domar a fera, que
acabou por devorá-lo de uma vez.
Vários
outros equívocos levam à dispersão da juventude petista. São equívocos de
ótica, que levam aos erros da política. O PT, como é um partido formado
majoritariamente por jovens, tem a sua juventude envolvida no dia-a-dia da vida
política do partido e dos movimentos sociais. Isso faz com que muitos não
participem dos núcleos ou coletivos de juventude, por já participarem, por
exemplo, do movimento sindical, popular, sem-terra, estudantil, ou mesmo das
instâncias de direção partidária. Ora, mas a organização da juventude
petista não pode ser a união dos desocupados do partido, dos que não têm
nada para fazer. A função de um partido como o PT é representar todas as
camadas oprimidas da sociedade.
A
juventude está em todas essas camadas e, portanto, a tarefa de organizá-la é
muito ampla e jamais poderá ficar circunscrita à insuficiência de uma
organização de estudantes, ou daqueles que, não atuando em qualquer instância
partidária ou movimento social, sobram para atuar na juventude. Nada mais estéril
do que isso para a elaboração de uma política para a juventude. Ao contrário,
organizar a juventude no PT significa organizar os jovens camponeses, operários,
populares, desempregados, estudantes..., para que possam refletir coletivamente
a sua existencialidade juvenil. Inclusive a partir do meio em que atuam, pois é
nele que radica a sua socialidade cidadã.
Uma
discussão complexa, mas que o partido precisa enfrentar, é de como a juventude
deve ser entendida. Em outras palavras: o que é este fenômeno fantástico
chamado juventude? Se, por um lado, a juventude não pode ser circunscrita numa
determinada faixa etária estanque, por outro lado, não pode ser reduzida a um
estado de espírito, nem à mera explicação de que ela é uma espécie de
"filha maldita" do capitalismo.
Tomar
juventude por um estado de espírito é uma visão errada que ao final desemboca
na tese de que a juventude não tem questões específicas e que, portanto, sua
organização e discussão no partido são coisas irrelevantes. Além do mais,
esta é uma abordagem idealista e autoritária. Idealista, porque desconhece que
o homem não é só idéia. É um ser social que vive num determinado tempo histórico,
o qual influencia sua vida e seu pensamento. Idealista, porque não considera
que um jovem, posto em relação a um idoso, por exemplo, guarda uma dimensão
psicossocial completamente distinta. Inclusive do ponto de vista orgânico.
Autoritária, porque, ao reduzir juventude a um estado de espírito, transforma
a juventude em ideologia. Sim, porque se alguém de cem anos tiver um estado de
espírito avançado, progressista, então será jovem. Bom, se é assim, então
não pode existir uma juventude nazista, por exemplo, pois pela sua ideologia de
direita, todos os nazistas serão "velhos". A conclusão de uma tal
interpretação da juventude é óbvia: num partido de esquerda, pelo seu estado
de espírito, todo mundo é jovem e, portanto, é uma redundância falar em políticas
específicas para a juventude.
Quanto
à idéia de que a juventude é um mero produto do capitalismo, como quem está
entre a adolescência e o primeiro emprego, constituindo uma espécie de lapso
antes de se integrar como força produtiva no mercado de trabalho, deve-se fazer
sérias objeções. A primeira é perguntar se em 1920, quando Lênin falava
para um Congresso da Juventude Comunista, o fazia por um erro de conceito, visto
que num país que não conhecia o capitalismo não poderia haver juventude.
Ainda mais entre os revolucionários socialistas. Onde achar a juventude em países
que não seguem a mesma lógica capitalista de utilização do trabalho humano
nessa mesma fase da vida? Se não havia capitalismo, para quem Aristóteles
falava, na Grécia Antiga, quando dizia que os jovens não deviam se ocupar da
política, visto serem perpassados pelas paixões? É óbvio que esses conceitos
de juventude não dão conta dessas questões, visto que são reducionistas do
que de fato representa o fenômeno juventude.
Não
há uma faixa etária estanque para se delimitar o acontecimento da juventude.
Mas o fato é que ela existe e, portanto, o PT precisa operar com uma esfera
conceitual mais ampla, capaz de sinalizar minimamente este fenômeno sócio-existencial.
Uma das possibilidades de compreender juventude por conceitos mais amplos pode
ser desvendada a partir de uma compreensão da própria existência humana.
Quando Frei Betto sistematizou o problema que viveu o socialismo no Leste
Europeu, dizendo que "no capitalismo socializou-se o sonho e privatizou-se
os meios e no socialismo socializou-se os meios e privatizou-se o sonho",
ele apanhou o núcleo fundamental da problemática do socialismo real: o dilema
da existencialidade do indivíduo.
Está
na hora de a esquerda assumir todas as conseqüências de que a luta de classes
e a mudança econômica não são os únicos motores da história. O problema da
sexualidade, por exemplo, não está diretamente subordinado ao conflito das
classes sociais ou à situação da economia. O sadismo, por exemplo, só num
segundo momento foi tomado na sua dimensão "sociológica", através
de uma reinterpretação de Freud pelos marxistas que trabalharam a psicanálise,
tais como Reich e Fromm. Entretanto, a sexualidade é um problema determinante
na existência humana, inclusive na formação da própria personalidade.
Convém
ainda anotar, de passagem, que a mente humana não se compõe unicamente da
esfera racional, daquilo que se convencionou chamar de consciência. A psicanálise
descobriu o inconsciente como uma parte fundamental da psiquê humana, onde
radica a identidade mais original do ser das pessoas. Há muito mais na existência
humana do que a economia política possa responder. Por isso, a função do
partido não pode ser - o que inclui o seu processo de formação política - a
mera preparação de algo como um "exército" para realizar os
enfrentamentos da disputa política no processo democrático. Um partido
revolucionário como o PT precisa discutir problemas que dizem respeito às vivências
específicas dos seres humanos. Precisa discutir a questão das mulheres, da
sexualidade, da afetividade, da cultura, da ecologia, dos valores religiosos,
morais e éticos.
Nesse
horizonte de compreensão é que a juventude se imbui de enorme significação.
Essas são questões que o PT já compreendeu há tempo. Entretanto, o que ainda
precisa entender é que deve parar de reduzir a idéia de mística a meras
aberturas culturais nos encontros políticos, a brincadeiras humorísticas ou a
realização de festas ou festivais. A mística não pode ser resumida ao
aumento da paixão pela luta política através do cultivo dos valores simbólicos
do partido como a bandeira, os bottons, hinos de campanha. Essa parte da mística
é importante. Mas não é suficiente e não pode servir de desculpa ou
justificativa para políticas que o PT não se propõe a desenvolver. Muito além
de valorizar os símbolos da luta, o PT precisa trabalhar questões que atingem
mais diretamente a existencialidade do ser humano, pois nelas também operam a
moral burguesa e a ideologia dominante. Sem reforma moral, não há verdadeira
transformação. Tomando-se a existência humana na sua devida complexidade
social e individual é que se pode compreender a importância fundamental e o
lugar especial que assume a questão da juventude para o projeto de um partido
revolucionário como o PT.
Na
linha dessas observações pode-se articular um esboço de como a juventude pode
ser compreendida em categorias mais abrangentes, que dêem conta de suas
especificidades. A juventude pode ser vista como uma fase da vida, mais ou menos
determinada, em que o ser humano se encontra em processo de formação e construção
de perspectivas de estabilidade para sua vida. É um momento de grande
expectativa e apreensão em relação ao futuro, regados normalmente por uma
postura inquieta e irreverente. É o espaço da vida em que se manifestam com
maior intensidade os problemas existenciais do ser humano, visto que é nesse
período que as pessoas realizam as grandes escolhas de suas vidas.
Por
conta dessa problemática sócio-existencial é que a juventude torna-se um
constante pedido de respostas, que coloca em cheque as estruturas da sociedade,
independente de seus matizes ideológicos. É por isso que a juventude se
reveste de irreverência e rebeldia. Como disse Albert Camus, para superar a angústia,
nada como a revolta. Esse "revoltar" da juventude não é algo
insurrecional (muito embora, por vezes, o tenha sido), mas é uma recusa dos
muros que lhe obstaculizam o presente e o futuro. Do seio desses confrontos, que
são psicossociais, é que emergem jovens aferrados na esquerda ou na direita,
suscetíveis aos modismos, às manias, ao rock-and-roll, às drogas e até à
violência. É nesse horizonte que surgem jovens apaixonados pela cultura, pelo
esporte, ou mesmo pela contracultura. Não é que se dividam entre críticos e
alienados. É que todos têm, nas suas mais variadas formas de apego, de
identidade e manifestação social, uma necessidade imperiosa de externar os
conflitos que sabem existir entre si e o mundo, e aqueles que não sabem, entre
si mesmos.
Os
velhos se apaziguam; os jovens se revoltam (independente da variável ideológica)
porque sabem, ou sentem, como disse Wilhelm Reich, que têm o seu futuro à sua
frente, enquanto os velhos o têm às suas costas. O hiato entre o partido e a
juventude, caso não resolvido, o fará marchar em direção ao passado, pois a
contradição desse abismo se reconciliará na síntese da senilidade política.
Santa Maria, RS, julho de 1993.
Paulo
Denisar Fraga é Professor do Departamento de Filosofia e Psicologia da Unijuí,
RS e ex-membro do Coletivo Estadual de Juventude do PT/RS em 1993/94.
TEXTO
II
2
– JUVENTUDE BRASILEIRA: DIAGNÓSTICO
*
Texto extraído do Documento Final do Projeto Juventude realizado pelo Instituto
Cidadania
O tema juventude
adquire visibilidade crescente nos últimos anos no Brasil. Aumentou o peso
relativo dessa categoria etária na população. Os brasileiros entre 15 e 24
anos somam hoje 34 milhões, representando cerca de 20% da população
brasileira.
Os jovens ocupam o
centro de questões que comovem o país, tanto no que diz respeito aos problemas
gerados pelo agravamento das desigualdades, como no que se refere à esperança
de novos caminhos para nossa evolução social, com valores e padrões éticos
superiores aos que predominam hoje.
É possível afirmar
que os jovens estão entre as principais vítimas do tipo de desenvolvimento
econômico e social observado nas últimas décadas, que aprofundou os problemas
da exclusão. Aumentou o desemprego e a precariedade da ocupação profissional
nesse segmento. Segundo dados do IBGE, cerca de 3,7 milhões de jovens estavam
sem trabalho em 2001, representando 47% do total de desempregados do país. A
taxa de desemprego aberto para os jovens estava em torno de 18%, quando a média
brasileira era de 9,4%[1].
Os
dados estatísticos são eloqüentes também quando revelam o déficit
educacional que atinge a juventude. Apesar de ter crescido o nível geral de
escolaridade em comparação com as gerações anteriores, 17 milhões, isto é,
mais de metade dos jovens brasileiros entre 15 e 24 anos, não estudavam em
2001. E somente 42% da população nessa faixa etária chegaram ao ensino médio,
hoje considerado nível básico de escolarização.
Entre os indicadores
preocupantes estão as estatísticas mostrando o crescimento da violência nos
grandes centros urbanos, que envolve os jovens de forma acentuada como vítimas
ou agressores. Pesquisa divulgada recentemente pela Unesco no Brasil mostra que
em 2002 a taxa de homicídios na população jovem foi de 54,5 para cada 100
mil, contra 21,7 para o restante da população. E o que é mais grave: enquanto
as taxas referentes ao restante da população têm se mantido relativa-mente
estáveis desde 1980, no segmento juvenil pulou de 30 naquele ano para os 54,5
de hoje.
Por outro lado, os
jovens, graças à elevação dos níveis educacionais, e dotados que são de
predisposição a mudanças, são mais capazes de aproveitar as transformações
trazidas pelas novas tecnologias informativas e produtivas. Possuem, por isso,
potencial para se tornarem atores estratégicos do desenvolvimento nacional.
Entre os jovens
brasileiros, pesquisas e estudos recentes têm revelado grande abertura aos
valores de solidariedade social e responsabilidade ambiental, confirmando-se a
capacidade transformadora já revelada para atuação em movimentos exigindo
mudanças éticas, sociais e políticas, como atestou a forte presença da
juventude em campanhas como a das Diretas Já e do Impeachment.
Juventude
pode parecer, à primeira vista, um
tema óbvio, assim como o diagnóstico de seus problemas, uma vez que todos
partilhamos uma noção social sobre a questão, todos convivemos com jovens e
temos opiniões a respeito de suas características, problemas e virtudes.
Afinal, os jovens são pauta constante na mídia, na publicidade e nos produtos
da indústria cultural, havendo uma produção incessante de imagens a seu
respeito.
No entanto, com
elevada freqüência essas imagens remetem a estereótipos que não correspondem
aos jovens reais, à diversidade de suas realidades e à complexidade das formas
que configuram suas vidas e seu posicionamento frente ao mundo. Nesse sentido,
compreender a juventude deixa de ser uma tarefa óbvia e exige leituras que
superem os mitos recorrentes e o senso comum.
Os jovens se
queixam, por exemplo, de que na mídia aparecem quase sempre em imagens
polarizadas. De um lado, os personagens de publicidade e novelas: bonitos, saudáveis,
alegres e despreocupados, que se oferecem como modelos de um tipo de consumo e
de um estilo de vida ao qual poucos jovens reais têm acesso. De outro, como
tema dos noticiários, jovens envolvidos em graves problemas de violência ou
comportamentos de risco. Na maior parte das vezes, jovens dos setores populares.
Essas imagens
correspondem a algumas das percepções correntes sobre a juventude, também
baseadas em estereótipos não fundamentados por dados reais, ou pouco balizados
pela diversidade existente. As duas mais conhecidas: os jovens da geração
atual denotam acentuado individualismo, consumismo, pragmatismo, alienação,
desinteresse político, acomodação frente ao estado das coisas; ou a de que são
eles os principais vetores de disseminação da violência, desagregação da
família e desestruturação dos vínculos societários.
Para elaborar um
diagnóstico rigoroso e sugerir possíveis respostas do ponto de vista das políticas
públicas, é preciso ir além de estereótipos desse tipo. A compreensão
adequada do que é a condição juvenil e o que a torna singular em relação a
outros segmentos populacionais é um ponto de partida fundamental. E isso
implica em responder algumas questões básicas: quais são as realidades, as
demandas, os problemas, os desafios, os limites e as possibilidades vividas
pelos jovens neste momento da nossa história, ou seja, no contexto social
vivido hoje pelo país. Sobretudo, requer clareza sobre porque, e de que forma
tais questões devem ser alvo de políticas públicas.
2.1 – A condição
juvenil e o contexto atual brasileiro
` A condição juvenil é
dada pelo fato de os indivíduos estarem vivendo um período específico do
ciclo de vida, num determinado momento histórico e cenário cultural. No
contexto atual, juventude é, idealmente, o tempo em que se completa a formação
física, intelectual, psíquica, social e cultural, processando-se a passagem da
condição de dependência para a de autonomia em relação à família de
origem. A pessoa torna-se capaz de produzir (trabalhar), reproduzir (ter filhos
e criá-los), manter-se e prover a outros, participar plenamente da vida social,
com todos os direitos e responsabilidades. Portanto, trata-se de uma fase marcada centralmente por processos de definição e de inserção
social.
Essa fase do ciclo
de vida não pode mais ser considerada, como em outros tempos, uma breve
passagem da infância para a maturidade, de isolamento e suspensão da vida
social, com a “tarefa” quase exclusiva de preparação para a vida adulta.
Esse período se alongou e se trans-formou, ganhando maior complexidade e
significação social, trazendo novas questões para as quais a sociedade ainda
não tem respostas integralmente formuladas.
Tal prolongamento se
deve, em parte,à necessidade de estender o tempo deformação, de escolaridade
e de capacitação profissional, mas também às dificuldades de inserção que
caracterizam, hoje,o tornar-se adulto. Além disso, as experiências das gerações
juvenis anteriores ampliaram a vivência dos jovens com dimensões mais
participativas, experimentais e autônomas no campo do lazer, da cultura, da
sexualidade e da sociabilidade.
A condição juvenil
não pode mais ser compreendida como apenas uma fase de preparação para a vida
adulta, embora envolva processos fundamentais deformação. Ela corresponde a
uma etapa de profundas definições de
identidade na esfera pessoal e social, o que exige experimentação intensa em diferentes esferas da vida.
A condição juvenil
se desenvolve em múltiplas dimensões. Os jovens são sujeitos com
necessidades, potencialidades e demandas singulares em relação a outros
segmentos etários. Requerem estruturas de suporte adequadas para desenvolver
sua formação integral e também para processar suas buscas, para construir
seus projetos e ampliar sua inserção na vida social.
Os processos
constitutivos da condição juvenil se fazem de modo diferenciado segundo as
desigualdades de classe, renda familiar, região do País, condição de moradia
rural ou urbana, no centro ou na periferia, de etnia, gênero etc. Em função
dessas diferenças, os recursos disponíveis resultam em chances muito distintas
de desenvolvimento e inserção.
O reconhecimento da
especificidade da juventude tem que ser feito num duplo registro: o da sua singularidade
com relação a outros momentos da vida, e da sua diversidade
interna, que faz com que a condição juvenil assuma diferentes contornos.
A juventude vive,
hoje, por um lado, possibilidades ampliadas no que diz respeito à liberdade de
escolhas e práticas comportamentais, potencializando os processos de
experimentação e definições próprios dessa idade. Conta também com maior
liberdade de participação cultural e política, após a restauração da
normalidade democrática.
Por outro lado, além
dos problemas já referidos a respeito da inserção social, profissional e
educacional, a juventude se depara com outro tipo de dificuldade: raramente é
considerada, ouvida, respeitada e levada a sério na expressão de suas opiniões
e necessidades. Muitos se queixam de serem discriminados nos espaços públicos
somente pelo fato de serem jovens. Os adultos com os quais mantêm contato, pais
e professores especificamente, em geral adotam uma atitude de julgamento, de
censura, omitindo-se em acompanhar seus percursos e ouvir suas demandas.
Esse quadro compõe
uma série de paradoxos para a atual geração juvenil, dos quais emergem as
dificuldades, os dilemas, os desafios e também as possibilidades que os jovens
têm à sua frente.
Os dados estatísticos
anteriormente disponíveis e os coletados nas pesquisas quantitativa e
qualitativa do Projeto Juventude indicam a amplitude dessa diversidade, a
gravidade das desigualdades, a complexidade dos dilemas e desafios colocados.
Abrem portas, também, para a procura de respostas e soluções.
2.1.1
– Alguns números
Os 34 milhões de
jovens que vivem hoje no Brasil se dividem igualmente entre homens e mulheres.
No último censo do IBGE, em 2000, 50% dos jovens se declararam brancos e 48%
negros ou pardos.
A proporção de
adolescentes – jovens entre 15 e 18 anos incompletos, conforme definição do
Estatuto da Criança e do
Adolescente – é de 31%, ou 10.727.038. Somam 7.222.250 os que têm 18 ou 19
anos (21,4%). E a faixa posterior, de 20 a 24 anos, alcança 47,6% (15.828.372
jovens), sempre conforme os dados do ano 2000.
A grande maioria
(84%, ou 28,4 milhões) vive no meio urbano, sendo que 10,4 milhões (ou 31% do
total) em regiões metropolitanas. Apenas 16% vivem em áreas rurais, mas é
importante lem-brar que esse percentual equivale a 5,5 milhões de jovens.
Os dados a respeito
da renda mostram acentuada desigualdade e indicam a condição de pobreza em que
vive a maioria dos jovens brasileiros. Apenas 41,3% dos jovens viviam, em 2000,
em famílias com renda familiar per capita
de mais de 1 salário mínimo, sendo que 12,2% (4,2 milhões) viviam em famílias
com renda per capita de até ¼ do salário
mínimo.
As taxas de
participação no sistema de ensino e no mercado de trabalho revelam um quadro
muito variado de situações de ocupação, mas basicamente revelam que esses
dois elementos estão no centro dos interesses e preocupações dos jovens,
conforme foi ratificado pelos dados coletados nas pesquisas desenvolvidas pelo
Projeto Juventude.
A PNAD de 2001
mostrava que, dos jovens entre 16 e 24 anos, 21% apenas estudam 5% estudam e
procuram emprego 19% estudam e trabalham 35% apenas trabalham 6% não estudam e
procuram emprego
14% não estudam, não
trabalham e nem procuram emprego.
Menos da metade
(45%) dos jovens estuda, enquanto 65% estão no mercado de trabalho, ocupados
(54%) ou procurando emprego (11%); sendo que apenas um quarto deles – 24% na
interseção – estudam e trabalham ou procuram emprego.
Considerados no seu
conjunto, esses dados acusam, logo de cara, que os jovens brasileiros enfrentam
graves problemas de exclusão escolar, assim como necessidades e dificuldades
frente ao mercado de trabalho. Cabe salientar que o mais alto grau de exclusão
social se expressa na situação dos jovens que não estudam e não trabalham,
nem procuram emprego, representando 14% do total, ou seja, um número próximo a
5 milhões de jovens brasileiros.
2.1.2
– Educação e trabalho
Os dados mudam
bastante segundo as variáveis de renda, sexo, idade e região. Considerados
apenas os adolescentes (faixa entre 15 e 17 anos), a maioria ainda está na
escola (83%), e, embora menor que a taxa geral, é grande a proporção daqueles
que fazem parte da população economicamente ativa: 40,2%.
Os fatores econômicos
são contundentes na exclusão escolar: pesquisa do Unicef feita em 2000 mostra
que praticamente dobra a porcentagem daqueles que já abandonaram a escola,
quando comparados os adolescentes da classe de renda mais alta e os da classe de
renda mais baixa.
Entre os jovens de
20 a 24 anos, 75% já estão no mercado de trabalho, e apenas 28% ainda estudam.
Uma pequena parte dos que já saíram da escola, porém, o fizeram por ter
concluído os graus considerados básicos ou desejados de formação escolar.
Apenas 36,4% concluíram o ensino médio, e mais 3,6% chegaram à Universidade.
Constatam-se diferenças regionais muito grandes nesses dados relativos ao
afastamento do sistema escolar, que também é mais intenso entre os homens que
entre as mulheres.
Mesmo decrescente, o
analfabetismo ainda atinge 3,8% da população juvenil, o que significa 1,1 milhão
de pessoas. A maior parte desses jovens – 70% – está na região Nordeste, e
quase a metade vive em áreas rurais (43%). Os negros representam 75% dos jovens
não alfabetizados.
As condições que
os jovens enfrentam no mercado de trabalho também são muito diversas e, para a
grande maioria, adversas. Assim como as taxas de desemprego, as de trabalho precário
também são maiores entre os jovens.
Dos 65% de jovens
entre 16 e 24 anos que estavam, em 2001, segundo o IBGE[2]
, na condição economicamente ativa, quase 18% não tinham emprego, o que
significava 3,5 milhões de pessoas, representando quase a metade dos
desempregados do país.
O desemprego também
se distribui desigualmente: é maior para jovens negros (23,8%) que para brancos
(16,4%); para as moças (22,2%) que para rapazes (14,5%); e também superior
entre os jovens das famílias mais pobres (26,8% na faixa de rendimento familiar
per capita inferior a meio salário mínimo).
Entre os jovens que
trabalham, 78% são assalariados, mas a maioria em situação de informalidade
(40,5%). Um número grande de jovens trabalha sem receber nada: 16,3%. Também
os dados relativos à carga horária média e nível de remuneração lhes são
nitidamente desfavoráveis.
2.1.3
– Integração simbólica, exclusão e violência
A juventude é a
fase da vida em que se tornam mais evidentes as ambigüidades e contradições.
Mas também é a fase da vida em que se está mais predisposto a questionar a
realidade e experimentar mudanças. Os jovens contemporâneos vivem uma
constante tensão entre a busca de sua emancipação
pessoal e a su-bordinação aos
ditames da sociedade de consumo, bem como das imagens da juventude veiculadas
pela mídia.
A mídia exerce um
papel crucial na atribuição de sentidos e na formação da opinião pública
desta geração, embora o público jovem receptor dos meios de comunicação
seja constituído por uma massa heterogênea, bastante diferenciada. Mesmo entre
os jovens da mesma idade e com condições sócio-econômicas semelhantes, são
muitas as possibilidades de recepção de uma mesma mensagem divulgada pela mídia.
Contudo, não há dúvida
de que o imaginário dos jovens está impregnado das informações e imagens de
juventude veiculadas pelos meios de comunicação de massa. Imagens fortes,
produzidas e reproduzidas muitas vezes nos veículos da mídia incorporam-se
fundo na percepção que os jovens configuram de si próprios e do mundo.
Dessa forma, são
assimiladas muitas das aspirações de consumo e estilos de vida estimulados
pela mídia. Na pesquisa quantitativa nacional organizada pelo Projeto
Juventude, verificou-se que 91% dos jovens entrevistados costumam assistir
televisão durante os dias da semana, e 87% disseram fazer o mesmo nos finais de
semana.
Ocorre que a
concentração da riqueza e a dificuldade de inserção remunerada no mercado de
trabalho dificultam o acesso à renda, bloqueando ou dificultando para a maioria
dos jovens a realização das aspirações incorporadas. O choque entre os
horizontes oferecidos pela mídia e as limitações concretas de renda e condições
sociais, bem como a inexistência de políticas públicas satisfatórias de
inserção juvenil, estão entre os fatores básicos a serem considerados quando
se tenta explicar os crescentes riscos de envolvimento com o narcotráfico e
outras modalidades de delinqüência.
Sendo poucos os
instrumentos de mediação de informação e cultura em seu entorno, sendo
restritas as oportunidades profissionais e tornando-se premente a necessidade de
compor o orçamento familiar, a juventude torna-se um grupo muito vulnerável à
ação de criminosos, sobretudo traficantes.
Expostos à ação
desses grupos, os jovens buscam no crime a oportunidade de sustento de si e, às
vezes, do resto da sua família. São os “soldados”, “vapores”, “aviões”
que, em busca de renda e reconhecimento social, associam-se em torno de práticas
criminosas.
A inserção da
juventude na marginalidade traz, por sua vez, um reforço considerável à
cultura da intolerância e da violência, uma vez que a impulsividade e o
espontaneísmo próprios da juventude se misturam ao senti mento de poder e
onipotência ocasionado pelo porte de arma de fogo. E isso contribui para a
proliferação de situações marcadas pela intransigência, onde a própria
juventude se converte em grande vítima.
A violência atinge
a juventude também na medida em que esse cenário produz um estigma muito
forte: a sensação de que todo jovem pobre, morador dos espaços de exclusão
é potencialmente vítima ou promotor de violência. Gera-se um novo fator de
exclusão: morar em certos bairros das grandes metrópoles acarreta dificuldades
adicionais para obtenção de trabalho.
A pesquisa do
Projeto Juventude revelou que 11% dos jovens já sofreram diferentes tipos de
violência física, sendo que a maior parte delas se deu em casa ou na vizinhança,
cometida por familiares, parentes, namorados, conhecidos. Cerca de 20% dos
jovens entrevistados já foram assaltados, enquanto 46% perderam algum parente
ou amigo de forma violenta. Como resultado, a questão da violência aparece
como um dos principais fatores de preocupação dos jovens. É citada em
primeiro lugar na referida pesquisa, sem alta variação por renda,
escolaridade, gênero e cor, como problema mais importante.
2.1.4
– Família
A maior parte dos
jovens ainda mora com os pais. Segundo o IBGE, apenas 12,5% já formaram família.
A pesquisa do Projeto Juventude mostrou que 78% dos jovens são solteiros e, dos
casados, só 7% o são oficialmente. A idade média com que saem da casa dos
pais ou parentes para iniciar nova unidade familiar é de 22 anos.
No entanto, é
elevado o número de jovens, principalmente do sexo feminino, que já possuem
filhos. Entre as adolescentes de 15 a 17 anos, 7,2% já são mães, e entre as
de 18 e 19 anos, 22,4%. Esses percentuais são mais altos nas regiões Norte e
Nordeste. Na pesquisa do Projeto Juventude, 22 % dos jovens já têm pelo menos
um filho. Muitos deles moram ainda com os pais ou outros parentes: 8% do total
de jovens, ou pouco mais de 1/3 dos que têm filhos. Conclui-se que a
maternidade, e mais ainda, a paternidade, não indicam, necessariamente, o
abandono da condição juvenil e de dependência em relação aos pais.
Há também uma
correlação forte entre as taxas de gravidez juvenil e baixas taxas de
escolarização e de renda. Em 2001, entre as jovens de 11 a 19 anos que tiveram
filhos, 81,2% estavam fora da escola e sua renda média familiar per
capita era de meio salário mínimo, enquanto para as que não tiveram
filho, a renda média era de 1,21. Na pesquisa do Projeto Juventude, a taxa de
jovens com filhos ficou acima de 30% nos níveis de escolaridade até ensino
fundamental, enquanto para os jovens com ensino superior essa taxa cai a 9%.
A juventude, como
fase da vida, envolve a construção de autonomia e individuação frente à família.
Nesse processo, além da conquista de independência econômica, o jovem busca
um progressivo desligamento da autoridade dos pais, estabelecendo confronto
entre valores e idéias a partir de novas fontes de referência, até chegar a
um modo próprio de ser e de enxergar o mundo.
Decorrem disso
conflitos inevitáveis, mas na maior parte das vezes a família permanece como
fonte de referência fundamental para os jovens, significando apoio e
solidariedade no enfrentamento das dificuldades externas. A pesquisa do Projeto
Juventude confirmou estudos anteriores mostrando que a família aparece como a
instituição em que os jovens mais confiam. E também como forte elemento de
apoio e referência.
É preciso levar em
conta, no entanto, que a sociedade atual está desafiada a redefinir
culturalmente essa categoria chave na vida e na formação dos jovens. Algumas
dessas mudanças já se expressam no aspecto religioso, na composição do núcleo
familiar, nas novas formas de estabelecer vínculos de parentesco.
No Brasil, cresce a cada
dia o pluralismo religioso no interior de uma mesma família.
Também já é muito
significativo o número de famílias chefiadas por mulheres, modificando-se as
definições de papéis sociais das mães e dos pais. Mudanças também se
evidenciam na composição da família nuclear, formada a partir de sucessivos
casamentos dos pais, que acarreta a convivência entre filhos ou filhas de
apenas um dos cônjuges.
Ainda assim, uma
concepção idealizada e nostálgica resiste ao tempo e tenta simplificar a
questão recorrendo à fórmula “família desestruturada”, subjacente em
comentários da mídia e em análises de alguns formuladores de políticas públicas,
em especial quando se tenta explicar desvios sociais e a criminalidade juvenil.
Frente à
complexidade das mudanças vividas hoje na estrutura familiar, é preciso ouvir
o que os próprios jovens têm a dizer quando fazem referência, quando
valorizam ou quando desvalorizam a família.
No que diz respeito
às políticas públicas de juventude, que devem combinar mecanismos de participação,
ampliação de direitos e garantia de proteção social, torna-se importante
uma reflexão mais profunda e atualizada com vistas a definir porque, quando e
como ações voltadas para os jovens devem – ou não – estar ancoradas no núcleo
familiar. Não no sentido de rejeitar a idéia da família harmoniosa como fator
favorável á formação dos filhos, mas com o sentido realista de ampliar a
caracterização da família dos jovens envolvidos em cada programa.
2.1.5
– Cultura e participação
As atividades de
fruição e produção de cultura, assim como as de recreação e esporte, são
campos centrais para a vivência da condição juvenil. Valem como espaços para
construção de identidades e sociabilidade, incluindo a criação de linguagens
e códigos próprios. Possibilitam experimentação, troca de informações,
ampliação de referências, elaboração e confronto de valores. Permitem que
os jovens se encontrem com outros jovens em espaços menos controlados e
regrados por adultos, ou pelo menos por adultos exercendo tutela.
Todas as pesquisas
recentes apontam a importância atribuída pelos jovens a essas atividades. A
dimensão da “diversão” aparece como um dos elementos constitutivos mais
fortes da identidade do “ser jovem” nas pesquisas realizadas pelo Projeto
Juventude. Cultura e esporte aparecem como a terceira ordem de interesse dos
jovens, depois de educação e trabalho.
Os jovens denunciam,
de modo insistente, a falta de equipamentos e mecanismos que propiciem o acesso
a atividades desse tipo, principalmente nas regiões mais pobres e periféricas
das metrópoles, assim como nas pequenas cidades e na área rural.
Uma das marcas da
geração atual tem sido a proliferação de grupos juvenis – principalmente
entre os setores populares – que se configuram como espaços de criação
cultural e se tornam verdadeiros canais de articulação de identidades
coletivas. Transformam-se em referência para além dos participantes diretos do
grupo, sinalizando comportamentos e posturas éticas para grandes contingentes
de jovens, em escala nacional.
Os resultados da
pesquisa quantitativa referida mostram a presença desses grupos na vida
juvenil: 15% dos jovens participam diretamente de algum, e quase metade dos
jovens pesquisados (54%) conhece grupos culturais do seu bairro ou comunidade;
em primeiro lugar de música, mas também de teatro, dança, rádio comunitária
etc, além de grupos ligados a esportes radicais como o skate.
Um mapa realizado
pela Prefeitura do Município de São Paulo em 2003, num levantamento inicial,
identificou 1600 grupos juvenis na cidade, dos mais variados tipos, a maior
parte deles ligada à cultura (35,8%).
2.1.6
– Participação política
A percepção de que
os jovens da geração atual estão mais distanciados da política, freqüente
na mídia, pode não passar de mais um estereótipo ou mito que exige uma
leitura crítica.
Em primeiro lugar, não
há bases confiáveis para a comparação. Não é possível comparar dados
estatísticos de hoje, que medem taxas de participação, com registros de
movimentos ou o impacto da ação política de décadas passadas. Em segundo
lugar, é necessário verificar com mais atenção a hipótese de que o
interesse em participar se mantenha alto, mas se manifestando em canais
diferentes dos tradicionais.
O descrédito nas
instituições políticas e nos partidos é um elemento apontado em todas as
pesquisas a respeito do comportamento e valores dos jovens. Mas é bom lembrar
que o fenômeno não se refere unicamente aos jovens. Essa desvalorização se
apóia na percepção da corrupção e da prevalência de interesses escusos em
muitas instituições.
Tal desqualificação
não significa, porém, que a juventude esteja desligada do assunto. A pesquisa
quantitativa do Projeto Juventude revelou que 85% dos jovens entrevistados
consideram que a política é importante e sabem que ela influi diretamente em
suas vidas (65%). O que parece forte, de fato, é a distância que sentem dos
mecanismos de participação e interferência. Menos da metade (43%) acha que
influi na política e isso certamente reflete a dificuldade de se sentirem
incorporados e legitimados nesses mecanismos.
Se as taxas que
medem a participação em entidades de ação e/ou representação política são
baixas – mas sem destoar muito das taxas da população em geral – isso não
significa necessariamente desinteresse ou falta de vontade de participar. Em
proporções que variam entre 40 e 60%, expressiva fatia dos entrevistados
manifestou o desejo de vir a fazê-lo, principalmente em associações comunitárias
ou profissionais, em entidades ligadas à defesa do meio ambiente, em ações
contra o racismo, de assistência social ou ainda nos conselhos ligados à educação
e à saúde.
A mesma disposição
para atuar pode ser verificada também na alta porcentagem (84%) de jovens que
afirmam poder transformar o mundo. É possível, então, suspeitar que haja mais
entraves para a participação do que desinteresse em fazê-lo.
Essa interpretação
pode ser corroborada pela constatação de que existe uma ampla diversidade de
formas de atuação coletiva entre os jovens, dos mais diversos tipos e com
diferentes raios de abrangência: os grupos culturais já citados, as equipes de
ação comunitária ou de trabalho voluntário, as entidades estudantis, as ONGs,
os movimentos sociais gerais, as mobilizações de contestação anti-globalização,
as redes de solidariedade ou campanhas libertárias etc.
Essa presença
participante se tem feito notar no cotidiano de muitas comunidades, nos momentos
de decisão coletiva a respeito de gastos públicos (como em alguns processos de
Orçamento Participativo), nas grandes mobilizações e acontecimentos políticos
do país, nos encontros e fóruns onde se buscam desenhar os traços de um outro
mundo possível, e nos espaços em que se inicia o debate a respeito das políticas
de juventude.
Desse modo, o
desafio que se coloca é a criação de mecanismos de apoio e reconhecimento da
diversidade de formas de atuação dos jovens, abrindo espaços para a sua
efetiva participação na definição e implantação das políticas públicas.
2.1.7
– Síntese
Esta seleção de
dados sobre a juventude brasileira mostra múltiplas dimensões da condição
juvenil. Há situações graves de vulnerabilidade e exclusão. Há dilemas
colocados para jovens de distintos setores sociais, que expressam diferentes
tipos de dificuldades e potencialidades. Mas há também fortes indicadores
positivos revelando o enorme potencial que se encontra retido nesse segmento
gigante da população brasileira, praticamente igual, em número, ao de um país
importante como a Argentina.
Torna-se necessário,
portanto, um conjunto de medidas que levem em conta a diversidade de situações
para permitir que os jovens processem seu desenvolvimento e realizem uma inserção
social satisfatória.
2.2 – Evolução das
políticas de juventude no Brasil
As políticas públicas
para os jovens no Brasil foram desenvolvidas, até pouco tempo atrás, com uma
dualidade que reproduzia desigualdades pré-existentes. De um lado, políticas
de educação, ainda longe de se concretizarem como universais, que se
tornaram acessíveis, nos seus graus mais avançados, apenas aos jovens de
classes médias e altas. De outro, políticas de assistência, para
jovens em situações especiais de “abandono”, desvio e marginalidade, quase
sempre das classes populares.
Nos anos 70 e 80,
quando o País vivia sob regime ditatorial, cresceram, para se contrapor a uma
onda de violência contra os “menores de idade” em situações diversas de
desvio, como os meninos de rua, as mobilizações em defesa dos direitos da
criança e do adolescente, exigindo que passassem a ser tratados como sujeitos
de direitos.
Essa luta colocou o
tema da infância na agenda pública, suscitou o desenvolvimento de políticas e
programas, e resultou no Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, que se
tornou importante marco para o estabelecimento de nova noção de cidadania para
esses segmentos.
A conquista do ECA
impulsionou, por sua vez, a criação do sistema de Defesa dos Direitos da Criança
e do Adolescente, sendo que os estados e municípios constituíram nos anos
subseqüentes fóruns específicos sobre o fato, garantindo debate e intervenção
dos poderes públicos nas próprias localidades.
Nos últimos quinze
anos, cresceram as ações, tanto do Estado como de diversos setores da
sociedade, na defesa dos direitos das crianças e adolescentes, embora a distância
entre o estabelecido na lei e a realidade permaneça grande.
As questões
atinentes aos jovens com mais de 18 anos permaneceram desconsideradas como foco
de ação pública e social até meados dos anos 90, quando eclodiu um novo
ciclo de interesse pelo tema, provocado pelo agravamento dos problemas de exclusão
já mencionados.
A questão ganhou
visibilidade também pela intensificação da presença de atores juvenis,
principalmente dos setores populares, que, adotando linguagens e comportamentos
variados no plano da cultura, do lazer, do cotidiano da vida comunitária,
vieram a público colocar as questões que os afetam e preocupam, cobrando
respostas.
Ao mesmo tempo,
atores juvenis tradicionais no âmbito político brasileiro, como as entidades
estudantis e as juventudes partidárias, além de manterem na ordem do dia suas
pautas relacionadas com a educação, passaram a demandar respostas
institucionais por parte dos poderes públicos, como a criação de organismos
gestores para a formulação e execução de políticas específicas para a
juventude.
Começam a se
construir, então, programas sociais – governamentais ou não – apoiados por
organismos de cooperação internacional, por agências das Nações Unidas e
por fundações empresariais, sendo justo destacar o importante papel
desempenhado por várias ONGs de perfil sério. Esses programas, em geral,
detectavam os problemas mais graves vividos pelos jovens e buscavam contribuir
para a supressão ou diminuição de certas marcas da exclusão.
Aumento da
escolaridade, desenvolvimento do potencial criativo na produção cultural,
elevação da consciência étnica, de gênero, de pertencimento comunitário
foram alguns elementos centrais dessas ações. Multiplicaram-se também os
programas na área da saúde, visando enfrentar, com ações de prevenção e
educação, problemas de gravidez precoce, de doenças sexualmente transmissíveis
e de drogadição.
Cresceram também os
programas de prevenção à violência, buscando mesclar a re-inserção
escolar, o fortalecimento da auto-estima e dos vínculos comunitários, através
de atividades ligadas á cultura, ao esporte e lazer; ou através de programas
de capacitação profissional e geração de renda.
Finalmente, em anos
mais recentes, nasceram diferentes tipos de organismos com a função de
coordenar políticas ou programas específicos para jovens nas estruturas do
poder executivo; principalmente nas prefeituras, mas também em alguns estados.
Embora representem um importante passo adiante, essas assessorias (ou
coordenadorias, secretarias, conselhos) têm enfrentado dificuldades muito
fortes para se consolidar, por limitação de recursos orçamentários,
estrutura de pessoal e carência de equipamentos.
Do mesmo modo, no âmbito
do Poder Legislativo o ambiente também começou a mudar. Cresce o interesse
parlamentar na elaboração de projetos de lei dirigidos a demandas apresentadas
pelos jovens. Algumas casas legislativas estruturaram espaços de debate, temporários
ou permanentes (como Comissões de Juventude ou Parlamentos Jovens). O tema se
transforma em matéria de debate parlamentar. A participação direta dos jovens
começa a ser admitida e assimilada.
No âmbito do
governo federal, nesta última década, alguns programas importantes foram
desenvolvidos. Careciam, contudo – como ainda ocorre hoje –, de maior
coordenação entre eles e, sobretudo, de uma definição conceitual clara a
respeito da juventude, que apontasse a necessidade de uma estratégia de abordagem
integrada, inovadora e abrangente.
Na verdade, a
juventude foi considerada quase exclusivamente no segmento relativo à adolescência,
e com um foco muito acentuado nas situações de risco. Priorizou-se o
estabelecimento de parcerias, principalmente com ONGs e fundações
empresariais, em torno de projetos dirigido aos jovens. Mas não foram
estabelecidos canais formais de diálogo e definição de diagnósticos, nem
diretrizes e prioridades para a formulação das políticas.
Ao Estado restou um
papel relativamente distanciado, de quem reconhece a importância da questão e
apóia iniciativas objetivando maior inclusão, mas se exime de assumir o tema
juventude como assunto de interesse estratégico nacional.
2.3 – Avanços recentes
As experiências
desenvolvidas nestes últimos anos são ricas e o debate público a respeito do
tema vem se avolumando de modo acelerado. Há, certamente, muitas visões
diferentes a respeito da juventude, assim como perspectivas distintas e mesmo
divergentes. Mas alguns consensos estão sendo produzidos, e podem servir de
base para uma elaboração coletiva e acordada entre os diferentes atores
envolvidos na questão, rumo ao estabelecimento de uma inédita política
nacional de juventude em nosso País.
Esses consensos
envolvem a compreensão da juventude como uma condição singular em relação a
outros segmentos populacionais; a noção de que os jovens são sujeitos de
direitos, com múltiplas dimensões a serem consideradas; que a realidade dos
jovens é marcada por ampla diversidade; que as diferentes situações exigem
respostas diferenciadas, porém referidas à igualdade de direitos que são
universais.
Postulam a
necessidade de políticas específicas, articuladas e transversais, coordenadas
por uma instância gestora do poder público, envolvendo a ação de diferentes
setores da sociedade – governamentais e não-governamentais – e que tais políticas
devem se basear na participação ativa dos jovens, considerados como
protagonistas das ações que dizem respeito a si mesmos e à sociedade em que
estão inseridos.
Os programas até
aqui desenvolvidos ajudaram a produzir informações e acumular experiência
para a composição de diagnósticos mais precisos. Testaram caminhos,
levantaram pistas a respeito do que fazer e também do que não fazer. Apontaram
soluções e novas demandas que precisam ser avaliadas, confrontadas e,
principalmente articuladas numa perspectiva mais integrada.
Isso só pode ser
feito através do debate público e de um esforço de concertação, onde se
fixem diretrizes orientadoras para a consolidação de uma política nacional
articulada para os jovens. E onde as definições sobre investimento de recursos
sociais possam ser feitas com transparência, aumentando a capacidade de impacto
da nova política proposta.
Seminários e
pesquisas realizados por Universidades, ONGs, centros de estudo e por entidades
como a Unesco e outras instituições já conseguiram refinar o campo de
conhecimentos a respeito dos jovens e seus dilemas. Compõem um importante
acervo para a construção de diagnósticos mais precisos, necessários para a
elaboração das políticas públicas de juventude, embora falte ainda maior
articulação interligando os pesquisadores, os formuladores dessas políticas e
os próprios movimentos e grupos de participação juvenis.
As conferências
municipais realizadas nas cidades onde há organismos gestores específicos para
juventude, as demandas apresentadas pelos jovens nos processos democráticos de
debate – como o Orçamento Participativo – e, principalmente, a participação
dos grupos juvenis nesses espaços, têm viabilizado um saudável confronto
entre as demandas dos jovens e as possibilidades de respostas por parte dos
poderes públicos.
Falta, porém,
ainda, construir canais mais articulados e institucionalizados de coordenação,
discussão e acompanhamento da implementação das políticas de juventude, com
capacidade de abarcar a rica diversidade das formas de participação dos jovens
e de garantir um diálogo de compromisso entre gerações.
A recente constituição
pelo Presidente da República de um Grupo Interministerial, sob responsabilidade
da Secretaria Geral da Presidência, articulando 19 ministérios para elaborar
um diagnóstico unificado das dezenas de ações voltadas à juventude no âmbito
do Executivo Federal representou um passo adiante bastante promissor. Cabe
ressaltar o ineditismo desse procedimento de integração interministerial,
propondo aos demais entes federativos que repitam essa experiência pioneira em
seus respectivos âmbitos de autoridade.
Reúnem-se as condições
para viabilizar o lançamento de uma abrangente política nacional de juventude,
que por sua vez poderá induzir as 27 unidades da Federação a se articularem
com os programas federais voltados à juventude e multiplicarem iniciativas na
esfera estadual, valendo o mesmo raciocínio para boa parcela das cidades
brasileiras de grande e médio porte.
A criação da
Comissão de Políticas de Juventude da Câmara Federal, em 2003, e a realização
de audiências em todos os estados da federação preparando a Conferência
Nacional e acumulando elementos para elaboração de um Plano Nacional de
Juventude representaram também uma impulso fundamental para viabilizar o salto
que se faz necessário.
A confluência de
todos esse processos, cada um no seu âmbito e com resoluções de natureza
distinta, criam, por sua vez, um clima favorável, inédito no país, para que
se multipliquem na sociedade civil – empresas, sindicatos de trabalhadores,
meios de comunicação de massa, igrejas, movimentos sociais, instituições de
ensino e pesquisa – iniciativas e programas igualmente orientados na mesma
direção.
A magnitude dos
desafios presentes no tema juventude ultrapassa todas as possibilidades de
resolução ou equacionamento pela atuação exclusiva do Estado. É indispensável
que a própria sociedade civil brasileira tome em suas mãos uma parcela
substantiva dessa tarefa.
TEXTO
III
Carta
à Juventude Brasileira
ABRIL/2003
Sem
dúvida, muitos já ouviram a seguinte frase: O
jovem é o futuro do Brasil. Essa é, certamente, uma das maneiras de
anunciar o otimismo de uma nação que busca nas gerações de jovens e a partir
deles construir um país melhor, mais justo e democrático.
Entretanto,
nas duas últimas décadas esta afirmativa não mais se confirma. A pesquisa
realizada pela Organização das Nações Unidas (ONU), através da Unicef, em
1999, mostra que a juventude brasileira encontra-se em segundo lugar no ranking
do pessimismo, atrás apenas da Colômbia. Esta informação advém da constatação
de que a cada 10 jovens brasileiros, 7 acreditam que não vão ter melhores
condições de viver e trabalhar que seus pais.
A
população jovem brasileira passou de 8,2 milhões em 1940 para 34 milhões em
2000, correspondendo, hoje, a 20,07% da população do país. No mundo apenas 10
países totalizam mais de 50% da população juvenil mundial. O Brasil assume a
quinta posição em termos de volume de jovens e cerca de 40% desses jovens
vivem em famílias de extrema pobreza (famílias sem rendimento ou até com meio
salário mínimo de renda familiar per capita).
Além
disso, o Brasil encontra-se entre os países com elevado número de mortes de
jovens a cada cem mil habitantes, sendo a AIDS, o homicídio, o suicídio e os
acidentes de trânsito as principais causas da expansão da morte entre jovens
com 15 e 24 anos. A cada 10 jovens brasileiros somente 6 são estudantes. Apenas
3 em cada 10 têm acesso ao ensino médio. Nas regiões metropolitanas, entre os
jovens que já pararam de estudar (34%) indicam a necessidade de trabalhar como
motivo, (16%) por falta de condições financeiras para pagar os estudos, (13%)
por gravidez/casamento,e, (10%) por falta de interesse pela escola. Nas regiões
metropolitanas entre os jovens que pararam de estudar, (51%) pararam no ensino
fundamental, (12%) sequer ultrapassaram a 4º série.
De
fato,a baixa escolaridade por parte da população juvenil é incompatível com
os objetivos de incorporação plena dos jovens aos avanços tecnológicos e
informacionais. A ineficiência do sistema de ensino é expresso pela problemática
relação da escola com os jovens. A expressão dessa dificuldade pode ser
encontrada tanto na rebeldia frente às normas escolares, nos altos índices de
fracasso escolar, nas pichações e depredações dos prédios, nas atitudes
desrespeitosas no convívio escolar, quanto na apatia de estudantes que se
mostram distantes e desinteressados pelas atividades escolares. Ainda que de
formas distintas, todas essas atitudes podem ser compreendidas como formas de
resistência/recusa à escola. Diversos estudos creditam grande parte desses
problemas à dificuldade, ou mesmo ausência de comunicação entre o mundo da
escola e o mundo dos jovens.
Mas
o que é o mundo dos jovens? O que é juventude? E como se pode defini-la?
Muitos afirmam que a juventude está circunscrita numa determinada faixa etária
estanque, outros entendem, de maneira reduzida, a juventude enquanto um estado
de espírito. No entanto, nenhuma destas caracterizações é suficientemente
completa para definir a juventude. Para nós a juventude pode ser vista como uma
fase da vida, mais ou menos determinada, em que os seres humanos se encontram em
processo de formação e construção de perspectivas de estabilidade para a sua
vida. É um momento de grandes expectativas e apreensão em relação ao futuro,
regados normalmente por uma postura inquieta e irreverente.
Portanto,é
neste espaço da vida onde se manifestam, com maior intensidade, os problemas
existenciais do ser humano, visto que é neste período que as pessoas realizam
as grandes escolhas de suas vidas. Devido a essa problemática sócio-existencial,
a Juventude torna-se um constante pedido de respostas, que coloca em cheque as
estruturas da sociedade, independentemente de seus matizes ideológicos. E, é
por isso que a juventude reveste-se de irreverência e rebeldia.
Atualmente,
os jovens são o segmento social mais carente de ações, enfrentam os maiores
índices de violência e desemprego que contrastam com a ausência de medidas
significativas de inserção desses jovens na sociedade. Faltam espaços de
lazer, acesso à cultura, emprego, falta o entendimento de que o jovem é,
um sujeito de direitos.
Faltam
perspectivas. A crise econômica e a ausência do Estado têm levado o jovem não
só à não acreditar no país,como a sonhar com outros valores, sendo o
individualismo, a violência e a fuga da realidade fatos crescentes para os
jovens. Nesse contexto tem sido valorizada a crença de que o futuro depende de
comportamentos e atitudes individuais. Mas, não há saídas individuais para
todos. O individualismo valorizado ao limite, somente reforça a desigualdade e
as reações violentas daqueles que crescentemente vão ficando de fora.
No
entanto, ainda há tempo para mudar. Sem dúvida, a juventude brasileira é bem
maior que o tamanho das dificuldades existentes. O fortalecimento de políticas
que possibilitem o jovem ultrapassar as barreiras atuais, através da distribuição
de renda, do crescimento econômico socialmente justo, das condições
educacionais e do fundamental engajamento social do jovem, que representa a saída
para todos aqueles que pretendem um futuro melhor, é a alternativa mais
coerente.
Para
isso, torna-se fundamental superar a noção do jovem enquanto risco ou
problema. É preciso combater a idéia de que os jovens constituem uma ameaça
para si próprios e para a sociedade. Esse preconceito existente e reforçado
pela mídia e a opinião pública têm aprofundado uma imagem parcial e negativa
quanto aos jovens e tem levado a sociedade a agir através de uma série de ações
de caráter compensatório.
Contudo,
a formulação de políticas públicas para a juventude tem que buscar o direito
a um desenvolvimento integral e uma participação ativa na sociedade, deve
fundar-se nos direitos do jovem a um processo de desenvolvimento que considere
suas necessidades e potencialidades e que, favoreçam as oportunidades de
desenvolvimento pessoal e social, cabendo ao Estado o papel de garantir o
suporte para que estes possam processar suas buscas, construir seus projetos e
desenvolver sua participação na vida social.
Portanto,
a partir da esperança que contaminou o povo brasileiro com a vitória de Lula e
a possibilidade da mudança está colocado como desafio para o parlamento avançar
no debate sobre o tema juventude e constituir no Brasil, assim como em outros países,
marcos legais para essa parcela da população. E, isso se traduz, hoje, na
necessidade de elaboração de um Estatuto de Direitos e de um Plano Nacional da
Juventude que só se concretizará a partir da participação incisiva e
determinante da juventude brasileira na constituição desses documentos que serão,
apenas legislações, mas se tornam ferramentas imprescindíveis para a
juventude construir sua identidade e reconhecimento na sociedade.
Deputado Federal (PT/SC)
TEXTO
IV
Discurso do Deputado Federal Vignatti (PT/SC) proferido na tribuna
da Câmara dos Deputados em 16 de março de 2004
Introdução
O tema juventude é
considerado por muitos um tema secundário, sem relevância diante das grandes
questões colocadas para o país, como: a política macroeconômica e o combate
à fome.
Entretanto,
o que queremos demonstrar neste discurso é que este tema é urgente e estratégico
para o desenvolvimento da nação.
A
conquista de políticas públicas de juventude é algo necessário para
enfrentarmos as desigualdades sociais porque é essa parcela da população a
mais vulnerável e a mais excluída.
Para
construir o desenvolvimento tão sonhado pelos brasileiros, precisamos preparar
essa geração de jovens que assumirá os destinos deste país.
Por
isso, o primeiro objetivo que queremos alcançar com esse debate é
sensibilizar, não só o Estado, mas toda a sociedade para a importância desse
tema.
O
segundo objetivo é ajudar a juventude a conquistar uma rede de proteção
social que garanta o seu bem estar, que atenda às necessidades específicas
dessa fase da vida e, fundamentalmente, que proporcione à juventude condições
para desenvolver o país.
Por Que Políticas Públicas de Juventude?
O
que nos levou a perceber a importância desse tema, são dois motivos
principais:
Primeiro,
a quantidade populacional que é a maior da história demográfica do país.
Nunca tivemos e nunca mais teremos tantos jovens na população brasileira.
Os
dados estatísticos revelam que a população jovem brasileira (de 15 a 24 anos)
passou de 8,2 milhões em 1940 para 34 milhões em 2000, correspondendo, hoje, a
20,07% da população total.
São
estes jovens que precisam de atenção hoje para constituir uma sociedade
vitoriosa no amanhã.
Conforme
o IBGE, se considerarmos a faixa de 15 a 29 anos, são 48 milhões de jovens,
28% da população brasileira.
O
Brasil é o 5º país do mundo no volume de jovens na população, depois de
China, Índia, Indonésia e Estados Unidos, e é responsável por 50% dos jovens
da América Latina e 80% do Cone Sul.
Mais
de 85% da juventude do mundo vive, hoje, nos países em desenvolvimento e não
é por nada que a ONU declarou que até 2010 vivemos a década da população
jovem.
Toda
essa quantidade de jovens é conseqüência de um fenômeno demográfico
denominado pelos estudiosos de Onda Jovem.
Este fenômeno consiste em um alargamento da pirâmide etária
brasileira nas faixas entre 15 e 29 anos, motivada pela grande quantidade de
nascimentos no final da década de 70 e início da década de 80.
É
importante destacar que este fenômeno populacional aumentou a exclusão já
existente e aprofundou a crise do Estado, que não consegue amparar todos os
cidadãos.
A
conseqüência desse processo é que os jovens são os que menos têm acesso à
educação, à saúde e ao emprego.
As
atividades de lazer, cultura e esporte estão ainda mais distantes da realidade
do jovem. Mas são essas as atividades que deveriam ser garantidas ao jovem,
porque é nesta fase da vida que o indivíduo dispõe de mais tempo livre.
O
segundo motivo que nos levou a perceber a importância do tema Juventude é o
fato dessa parcela da população sofrer mais drasticamente as conseqüências
da exclusão social.
A
ausência histórica do Estado em assistir essa população também é outro
agravante da precariedade da condição juvenil.
A
prova desta condição de exclusão é apontada nos seguintes dados:
40% dos jovens brasileiros vivem em famílias sem rendimento ou até com
meio salário mínimo.
A cada dois desempregados do país, um é jovem. Mesmo entre os ocupados,
a maioria está na informalidade. Somente 35% têm carteira assinada.
Dois em cada três presos são jovens.
Somente três em cada dez jovens têm acesso ao ensino médio.
Entre os que já pararam de estudar, 51% pararam no ensino fundamental e
12% sequer ultrapassaram a 4ª série.
A
partir dessas informações, podemos concluir, que os jovens são, hoje, a
parcela da população mais vulnerável à pobreza e a menos protegida pelos
direitos fundamentais.
A
conseqüência direta destas estatísticas é apontada numa pesquisa mundial
realizada pela ONU - Organização das Nações Unidas, através da Unicef, em
1999.
O
estudo demonstra que a juventude brasileira é a segunda no ranking do
pessimismo, ficando atrás somente da juventude da Colômbia.
Esta
constatação revela que de cada 10 jovens brasileiros 7 acreditam que terão
piores condições de vida e trabalho que seus pais.
Por
esses motivos é que se torna urgente pautarmos esse tema e, a partir disso,
começarmos a construir alternativas para devolver a essa parcela da população
a esperança.
A
construção de alternativas, através de políticas públicas, que garantam o
bem estar dos jovens - direito fundamental enquanto cidadãos – que atendam às
necessidades específicas e, ainda, que possibilitem a preparação dessa geração
para assumir o país é uma tarefa imediata da sociedade e dos governos.
Como as Políticas Públicas de Juventude estão
sendo construídas?
As
contradições e os desafios que se colocam para a juventude tem um tempo próprio
para serem enfrentados. E o tempo é hoje. Amanhã essas ações não terão
mais efetividade. Não agir hoje resultará num risco de retrocesso para o
desenvolvimento futuro da nação.
Por
isso iniciamos, na Câmara dos Deputados, o debate sobre Juventude. Através da
Frente Parlamentar em Defesa de Políticas Públicas para a Juventude
conquistamos a criação da Comissão Especial destinada a acompanhar e estudar
propostas de políticas públicas para a Juventude, em 7 de abril de 2003.
Na
Comissão Especial, formada por 24 parlamentares de partidos que compõem esta
casa, estabelecemos a meta de elaborar um Plano Nacional e um Estatuto de
direitos da Juventude.
Sabemos
que em outros momentos, na Câmara dos Deputados, houve tentativas de pautar o
tema juventude. No entanto, a iniciativa não obteve êxito. Primeiro, porque as
opiniões emitidas acerca do tema foram, na maioria das vezes, superficiais, que
criminalizavam o jovem, vendo-o sempre como um indivíduo suspeito.
Segundo,
porque não estabeleceram um diálogo com as organizações de juventude e, o
mais grave, sequer chamaram os jovens a participar e a opinar nas discussões.
Todas
as iniciativas que tomamos, até agora, caminharam em outro sentido e tentam
romper com o distanciamento que existe entre o parlamento e a juventude.
Estamos
buscando construir, em todos os espaços, uma lógica onde os jovens sejam
sujeitos das ações desta comissão.
Assim
a experiência acumulada pela comissão até aqui demonstra que estamos no
caminho certo.
No
momento, realizamos em todos os Estados da federação, audiências públicas
com a juventude e suas organizações para discutir o relatório que foi
produzido pela Comissão e que lança as diretrizes do Plano Nacional e do
Estatuto dos Direitos da Juventude.
No
estado de Santa Catarina, estamos realizando plenárias preparatórias à audiência
estadual em cinco regiões com o objetivo de democratizar e envolver uma parcela
maior da juventude.
Essas
audiências públicas, em todos os estados, culminarão com a realização da
Conferência Nacional da Juventude, evento a ocorrer de 11 a 13 de maio próximo.
A
conferência terá a atribuição de elaborar o Plano Nacional e o Estatuto de
Direitos da Juventude.
Além
das ações da Comissão, é importante ressaltar mais duas iniciativas que têm
contribuído de maneira decisiva para o tema juventude ser pautado na sociedade.
Primeiro,
as várias ações do governo Lula, consolidadas nos seguintes programas:
Primeiro Emprego, do Ministério do Trabalho; e Primeira Terra, do Ministério
do Desenvolvimento Agrário, apenas para citar os mais significativos. Existem
ainda iniciativas dos ministérios da Educação, da Justiça, do da Assistência
Social, da Saúde e do Meio Ambiente.
Outra
ação importante do Governo Lula foi a criação do Grupo de Trabalho sobre
Juventude na Câmara Interministerial de Políticas Sociais.
Da
sociedade civil, temos as contribuições do Projeto Juventude desenvolvido pelo
Instituto da Cidadania, ONG reconhecida pela elaboração de importantes
propostas como o Fome Zero, projeto Moradia e projeto Segurança Pública.
O
projeto Juventude tem sido construído com a pluralidade das organizações e
estudiosos envolvidos com o tema e visa contribuir para a mudança da compreensão
que se tem hoje sobre a juventude e elaborar um conjunto de propostas que possam
ser desenvolvidas pelos governos através de políticas públicas.
Todas
essas ações e iniciativas são algo recente no país. Aliás o Brasil está
atrasado nas discussões acerca das políticas públicas de juventude em relação
aos países Europeus e a vários países da América Latina, mesmo possuindo um
dos maiores contingentes de jovens no mundo.
As
iniciativas da Comissão Especial, do Instituto Cidadania e do Governo Lula
caminham na direção de superar esse atraso e resgatar a esperança para essa
população.
Assim,
o Congresso Nacional tem que assumir o compromisso de envolver a sociedade em um
amplo debate para a formulação e a construção dessas políticas.
O Que Fazer?
Para
nós, são cinco os eixos fundamentais de uma política de juventude para o país:
A participação
e o engajamento civil, através de um grande projeto nacional que possa
envolver a juventude em ações locais de desenvolvimento humano;
A
reformulação e adequação da educação às necessidades dos jovens,
através da ampliação da rede pública e dos investimentos na área (porque
70% da Juventude nem chegou ao ensino médio), através de uma reestruturação
pedagógica e a efetivação da democracia nos espaços educacionais (porque a
Juventude está distante e desinteressada da escola);
O Financiamento
Público do Tempo Livre, através de programas que possam garantir o acesso
da juventude a atividades culturais, esportivas e de lazer;
O estabelecimento
de Centros de Convivência, através do qual os diversos seguimentos juvenis
possam se integrar e interagir;
A criação
de uma Secretaria Especial de Juventude no âmbito do governo federal.
Essa
secretaria, com orçamento próprio para desenvolver programas vinculados aos
eixos citados anteriormente, teria como atribuição: executar programas e
projetos; articular ações das diversas áreas do governo em torno do tema
juventude; apoiar e criar nas esferas municipais e estaduais secretarias de
juventude; e apoiar projetos locais desenvolvidos pela sociedade civil na área
de juventude.
Sugerimos,
ainda, como mecanismo democrático de fiscalização, controle e formulação de
políticas a realização bianual de uma Conferência Nacional de Juventude
convocada pela própria Secretaria e com etapas preparatórias em todos os municípios
do país.
Conclusão
Por
fim, espero contar com o engajamento de todos os parlamentares na construção
destes importantes espaços de afirmação dos direitos da juventude brasileira,
para que assim possamos devolver a esperança a essa juventude e proporcionar a
ela a oportunidade de construir uma sociedade mais justa e um mundo melhor.
Era
o que tinha a dizer.
Muito
obrigado.
TEXTO
V
Juventude e Estado: Direitos
e Política Nacional
16 de Junho de 2004.
Introdução:
No
início do último ano, o tema juventude começou a ser pautado de forma mais
efetiva nos espaços institucionais.
A
iniciativa da Câmara dos Deputados com a criação de uma Comissão Especial,
destinada a estudar propostas de políticas públicas para juventude,
potencializou o processo de discussão nacional acerca do tema e evidenciou a
demanda existente por uma política de Estado para os jovens.
Paralelamente
a essa iniciativa, as ações e atividades da sociedade civil se intensificaram.
Particularmente, a ação do Instituto Cidadania, através do Projeto Juventude,
possibilitou um diálogo plural e mais nacionalizado entre os atores envolvidos
com o tema.
Além
disso, recentemente, mais uma iniciativa importante no campo institucional
surgiu. No início deste ano o Governo Lula instalou um grupo de trabalho
interministerial com a tarefa de apresentar propostas de políticas de juventude
para o governo.
Todas
essas ações têm sido fundamentais para o acúmulo de consensos em torno da
importância e da necessidade de uma política nacional de juventude.
Entretanto, até o atual momento, ainda não foi possível conceber uma proposta
de conjunto capaz de responder de maneira consistente à demanda exigida pela
realidade da população jovem.
Portanto,
com o intuito de contribuir com o debate sobre a formulação de uma política
nacional de juventude é que produzimos o presente documento. A idéia aqui é
apresentar um desenho de políticas públicas que sejam eficazes e,
principalmente, exeqüíveis.
Sabemos
dos obstáculos que estão colocados para a implementação de políticas públicas
no país, especialmente, no que tange a realidade orçamentária. Mas entendemos
que o papel de um governo eleito pelos setores populares é enfrentar, com todas
as dificuldades e correções de rumos, o desafio da superação da exclusão,
gerando oportunidades.
Por
isso, o que estamos propondo como política nacional de juventude abrange os
poderes legislativo e executivo nas três esferas administrativas. E,
fundamentalmente essa política corrobora com os objetivos estratégicos desse
governo alimentando a esperança nos jovens brasileiros e através deles em toda
a nossa sociedade.
A
proposta de política nacional que estamos apresentando está dividida em três
momentos de implementação, são eles: 1. Consolidação dos Direitos da
Juventude; 2. Estabelecimento de uma Política Nacional (Políticas Públicas
– Programas e Ações) ; e 3. A efetivação de tais direitos e políticas públicas.
Atualmente, os jovens são o segmento social mais carente de ações,
enfrentam os maiores índices de violência e desemprego que contrastam com a
ausência de medidas significativas de inserção desses jovens na sociedade.
Faltam espaços de lazer, acesso à cultura, emprego, falta o entendimento de
que o jovem é, um sujeito de direitos.
Faltam perspectivas. A crise econômica e a ausência do Estado têm
levado o jovem não só à não acreditar no país, como a sonhar com outros
valores, sendo o individualismo, a violência e a fuga da realidade fatos
crescentes para os jovens. Nesse contexto, tem sido valorizada a crença de que
o futuro depende de comportamentos e atitudes individuais. Mas, não há saídas
individuais para todos. O individualismo valorizado ao limite, somente reforça
a desigualdade e as reações violentas daqueles que crescentemente vão ficando
de fora.
No entanto, isso precisa mudar. Para isso, torna-se fundamental superar a
noção do jovem enquanto risco ou problema. É preciso combater a idéia de que
os jovens constituem uma ameaça para si próprios e para a sociedade. Esse
preconceito existente, reforçado pela mídia e pela opinião pública, têm
aprofundado uma imagem parcial e negativa sobre os jovens e tem levado a
sociedade a agir através de uma série de ações de caráter compensatório.
Neste sentido, a iniciativa do parlamento brasileiro, através da instalação
da Comissão Especial de Políticas Públicas de Juventude, tem sido um espaço
importante por congregar a pluralidade do debate sobre juventude e por poder
estabelecer o devido reconhecimento da população jovem através da definição
de marcos legais.
Inicialmente, a Comissão Especial definiu pela elaboração de um
estatuto e de um plano nacional de juventude, como instrumentos de garantia de
direitos e de consecução de metas de qualidade de vida para o jovem.
Hoje,
depois de todo o processo de discussão, existem diferentes opiniões sobre o
Estatuto da Juventude e o Plano Nacional.
Entendemos
que para a consolidação de políticas públicas de juventude é necessário o
estabelecimento de um conjunto de leis que reconheçam e afirmem a condição
dos jovens na sociedade. Contudo esses marcos legais, por si só, não irão
garantir que sejam implementadas políticas públicas de juventude. Por isso é
fundamental a mobilização da sociedade civil e, especificamente, a atuação
das organizações juvenis reivindicando e exigindo dos governos a implementação
de tais políticas.
Sobre
a configuração dos instrumentos legais que serão produzidos e sugeridos pela
Comissão Especial ao Congresso Nacional a nossa opinião é de que dois
projetos devem ser encaminhados:
1.
Projeto
de Emenda Constitucional (PEC) que através de um Capítulo na
Constituição estabeleça: a) o devido reconhecimento; b) garantia de que seja
tema de discussão pelo Estado através dos poderes constituídos e das outras
esferas administrativas; c) garantia a participação da juventude na definição
das políticas que dizem respeito a si e ao país e nos poderes e esferas
administrativas; e d) a responsabilidade dos estados e municípios em realizar
políticas específicas.
-
É importante destacar que essa proposta de emenda não é
algo extenso e detalhado mas uma forma de afirmar, na maior lei do país, para a
sociedade e para o Estado a condição juvenil.
-
A proposta de Estatuto, que foi inicialmente definida pela
Comissão, é algo que necessita de um debate mais amplo e profundo. No atual
momento não existe maturidade para elaborar um Estatuto da Juventude que seja
fruto de um consenso de discussão da sociedade civil. Sem essas condições
esse instrumento legal perde a efetividade. Portanto, defendemos uma PEC que
apesar da tramitação e da aprovação serem mais complexas, é um instrumento
que contempla a questão da juventude de maneira mais genérica e ao mesmo tempo
marca a conquista de direitos.
2.
Projeto
de Lei de Plano Nacional de Juventude que estabeleça um conjunto de
metas a serem alcançadas pelo poder executivo, tendo em vista a melhoria das
condições de vida dos jovens. Essas metas seriam decenais e avaliadas
periodicamente.
-
Também é preciso destacar que essa lei não seria tão
extensa quanto, por exemplo, o Plano Nacional de Educação. Mas seria um
importante instrumento para a consecução de políticas públicas.
-
Apesar do consenso sobre este instrumento, entendemos que o
plano deve estruturar suas metas de forma transversal, agregando as áreas
(Educação, Trabalho, Esporte, Cultura, Saúde, ...) em torno de eixos baseados
nas necessidades dos jovens, como por exemplo: EIXO I Fomento ao bem estar
juvenil, EIXO II Incentivo a emancipação juvenil, EIXO III Desenvolvimento da
cidadania e organização dos jovens, EIXO IV Geração de igualdade de
oportunidades para os jovens em condições de exclusão, ...)
Além
desses projetos, sugerimos que a Comissão proponha ao congresso modificações
nos regimentos internos incluindo o tema juventude em Comissão Permanente. Pois
não bastará só aprovar um conjunto de leis sobre o tema é preciso garantir
que a juventude seja constantemente debatida e pautada no parlamento brasileiro.
Sem dúvida, muitos já ouviram a seguinte frase: O
jovem é o futuro do Brasil. Essa é, certamente, uma das maneiras de
anunciar o otimismo de uma nação que busca nas gerações de jovens e a partir
deles construir um país melhor, mais justo e democrático.
Entretanto, nas duas últimas décadas esta afirmativa não mais se
confirma. Pesquisa realizada pela Organização das Nações Unidas (ONU), através
da Unicef, em 1999, mostra que a juventude brasileira encontra-se em segundo
lugar no ranking do pessimismo, atrás apenas da Colômbia. Esta informação
advém da constatação de que a cada 10 jovens brasileiros, 7 acreditam que não
vão ter melhores condições de viver e trabalhar que seus pais.
Segundo o censo do IBGE a população jovem brasileira passou de 8,2 milhões
em 1940 para 34 milhões em 2000, correspondendo, hoje, a 20,07% da população
do país. No mundo apenas 10 países totalizam mais de 50% da população
juvenil mundial. O Brasil assume a quinta posição em termos de volume de
jovens e cerca de 40% desses jovens vivem em famílias de extrema pobreza (famílias
sem rendimento ou até com meio salário mínimo de renda familiar per capita).
Além disso, o Brasil encontra-se entre os países com elevado número de
mortes de jovens a cada cem mil habitantes, sendo a AIDS, o homicídio, o suicídio
e os acidentes de trânsito as principais causas da expansão da morte entre
jovens com 15 e 24 anos.
A cada 10 jovens brasileiros somente 6 são estudantes. Apenas 3 em cada
10 têm acesso ao ensino médio. Nas regiões metropolitanas, entre os jovens
que já pararam de estudar (34%) indicam a necessidade de trabalhar como motivo,
(16%) por falta de condições financeiras para pagar os estudos, (13%) por
gravidez/casamento, e (10%) por falta de interesse pela escola. Nas regiões
metropolitanas entre os jovens que pararam de estudar, (51%) pararam no ensino
fundamental, (12%) sequer ultrapassaram a 4º série.
Estas estatísticas demonstram a necessidade da ação do poder público,
através de políticas específicas para a juventude.
Nesse sentido, a formulação de políticas públicas de juventude deve
buscar o desenvolvimento integral e a participação ativa na sociedade. Deve,
também, fundar-se nos direitos do jovem a um processo de crescimento que
considere suas necessidades e potencialidades e que, favoreçam as oportunidades
de inclusão, cabendo ao Estado o papel de garantir o suporte para que estes
possam processar suas buscas, construir seus projetos e desenvolver sua inserção
na vida social.
Por isso, entendemos que uma política nacional de juventude, hoje, deve
estruturar-se através de cinco eixos, sendo A)
quatro eixos de atuação e B) um
eixo de desenho institucional, que organize dentro do governo e do Estado a
execução das políticas públicas.
A) Eixos de atuação
1.
Programa Nacional de Engajamento Civil.
Com o objetivo de envolver os jovens em ações de estímulo e apoio ao
desenvolvimento local. O programa teria abrangência nacional com jovens de
todas as classes sociais e níveis sócio culturais (portanto, não só
universitários). Após capacitação para serem agentes comunitários esses
jovens, através de diversas atividades atuariam na organização das
comunidades, na assessoria e no desenvolvimento de projetos locais. O programa
teria duas fases uma de atuação do jovem no seu município e outra de atuação
do jovem em outra localidade do país, assim possibilitando o conhecimento de
realidades regionais diferentes. Além disso, o jovem receberia uma remuneração
(salário) pelo período em que estivesse desenvolvendo o trabalho e deveria,
pelo menos durante a participação no programa, estudar meio período.
-
A importância do programa está na possibilidade de
envolver a juventude como agente na construção da nação, através da sua
atuação local elevando a auto-estima do jovem e desenvolvendo competências
nele.
2.
Adequação da educação às necessidades dos
jovens.
Com o objetivo de reestruturar o ambiente escolar e as práticas educativas de
forma a atrair e envolver os jovens na construção do conhecimento e no
desenvolvimento da aprendizagem. Esse eixo seria realizado em parceria com o MEC
através de um grupo de trabalho na fase inicial para detalhar as ações e,
posteriormente, através de programas pilotos. Os programas visariam: a) ampliação
da rede pública e dos investimentos na área (porque 70% da Juventude nem
chegou ao ensino médio); b) reestruturação pedagógica e a efetivação da
democracia nos espaços educacionais (porque a Juventude está distante e
desinteressada da escola), principalmente, na escola de ensino médio; e c)
capacitação dos educadores sobre a temática juventude.
-
De fato, a baixa escolaridade por parte da população
juvenil é incompatível com os objetivos de incorporação plena dos jovens aos
avanços tecnológicos e informacionais. A ineficiência do sistema de ensino é
expresso pela problemática relação da escola com os jovens. A expressão
dessa dificuldade pode ser encontrada tanto na rebeldia frente às normas
escolares, nos altos índices de fracasso escolar, nas pichações e depredações
dos prédios, nas atitudes desrespeitosas no convívio escolar, quanto na apatia
de estudantes que se mostram distantes e desinteressados pelas atividades
escolares. Ainda que de formas distintas, todas essas atitudes podem ser
compreendidas como formas de resistência/recusa à escola. Diversos estudos
creditam grande parte desses problemas à dificuldade, ou mesmo ausência de
comunicação entre o mundo da escola e o mundo dos jovens.
3.
Financiamento Público do Tempo Livre do Jovem.
Com o objetivo de proporcionar ao jovem de baixa renda o acesso e a utilização
produtiva e criativa do tempo livre.
-
Uma das características da condição juvenil e a maior
disponibilidade de tempo livre do que em outras fases da vida. Entretanto, a
utilização deste tempo livre com atividades produtivas e criativas é,
atualmente, um privilégio dos jovens que possuem condições financeiras. Ou
seja a utilização do tempo livre é algo da esfera privada. Portanto, a única
forma, hoje, de gerar oportunidades de alcance aos bens culturais e sociais para
a maioria da população jovem é através da ação do Estado.
-
Esse eixo seria desdobrado em dois programas:
a)
Cartão jovem:
Este programa consistiria em disponibilizar para os jovens de baixa renda um
cartão com determinado valor mensal, onde esse valor poderia ser somente
utilizado em atividades consideradas produtivas e criativas para o tempo livre
do jovem. Essas atividades seriam estabelecidas através de uma lista e de convênios
com os serviços locais. Por exemplo: apresentações culturais (cinema, teatro,
dança, exposições, etc.), a compra de livros, de uma bola de futebol,
passagem para viajar, mensalidade de academia, cursos de música, computação,
etc...
-
A importância deste programa seria oportunizar aos jovens
de baixa renda o acesso aos bens culturais e sociais tão fundamentais para o
desenvolvimento humano.
b)
Agente de lazer e esporte.
Este programa consistiria em capacitar e instrumentalizar jovens para
desenvolverem nas comunidades atividades de lazer e esporte. Os agentes jovens
seriam remunerados (salário) e deveriam, durante meio período estar estudando.
-
A importância deste programa está na possibilidade de
desenvolvimento da qualidade de vida local através do envolvimento dos jovens
desenvolvendo competências no jovem e elevando a sua auto-estima.
4.
Programa
Nacional de Centros de Convivência. Com o objetivo de proporcionar
um espaço de integração, interação e diálogo entre as diversos seguimentos
juvenis, disponibilizando infra-estrutura para a realização de reuniões,
oficinas e eventos. Esse programa seria implementado, na fase inicial, em todas
as capitais. Os Centros de Convivência seriam mantidos pelo poder público e
gestados pelos próprios jovens. São pressupostos para a instalação dos
centos: a garantia de gratuidade em todas as atividades realizadas no centro -
pois a maioria da juventude não tem dinheiro e qualquer taxa excluiria a
participação de muitos jovens; e a garantia de fluxo de deslocamento para o
centro de convivência - pois se o acesso ao local do centro for difícil e
distante isso também excluiria muitos jovens.
-
A importância desse programa seria viabilização de espaços
públicos para as juventudes realizarem, nos marcos da pluralidade e da
diversidade, projetos coletivos. Desta forma os jovens podem ocupar o seu tempo
livre desenvolvendo competências e adquirindo experiências.
B) Eixo de Desenho Institucional
5.
O eixo de desenho
institucional que propomos tem como pressuposto uma determinada visão de
Estado. Na qual o ente que executa as políticas não deve ser autônomo, nem
realizar capitação de recursos, mas estar inserido no conjunto das políticas
de governo com dotação orçamentária pública, para seu funcionamento e execução
de seus programas. Desta forma, seus objetivos estariam estritamente
subordinados ao controle público.
Esse desenho institucional estaria subdividido em quatro instâncias
que seriam:
5.1
Assessorias
específicas de juventude em todas as pastas do governo.
Com o objetivo de efetivar a transversalidade do tema e das políticas de
juventude no Estado. As assessorias seriam criadas tanto nos ministérios quanto
nas secretarias.
5.2
Secretaria
Especial de Juventude. A criação de um órgão no poder executivo com a
finalidade de executar políticas específicas para a população jovem é
fundamental para a efetiva realização destas políticas com resultados. Este
órgão, entretanto, por tratar de uma questão que é recente para a administração
pública, não poderia ter uma estrutura de um ministério, pois seria um passo
maior do que as possibilidades atuais. Mas, também não poderia ser uma
estrutura de assessoria ligada a presidência, pois isso estaria aquém das
necessidades do momento. Portanto, propomos a estrutura de uma Secretaria
Especial que estaria adequada as possibilidades e necessidades do atual momento.
-
É importante destacar que as propostas de eixos de atuação
da política nacional de juventude, que já foram descritos, dependem de um
desenho institucional no governo federal para serem implementadas.
-
A secretaria especial teria como atribuição: a) Executar
programas e projetos de acordo com os eixos de atuação definidos; b) Articular
de maneira transversal com as demais áreas do governo ações de políticas públicas
de juventude; c) Coordenar as ações das assessorias de juventude das outras
pastas dos governos; d) Articulação com as outras esferas administrativas
(estados e municípios); e) Capacitação de gestores estaduais e municipais de
políticas públicas de juventude; e f) apoiar projetos locais desenvolvidos
pela sociedade civil na área de juventude.
5.3
Conselho
Nacional de Juventude. Com o objetivo de fiscalização e controle da
atuação da Secretaria Especial de Juventude. Seria eleito paritariamente,
sendo 1/3 de membros indicados pelo governo, 1/3 de membros eleitos na Conferência
Nacional de Juventude e 1/3 de membros indicados pelas entidades eleitas na
Conferência Nacional de Juventude. Os membros indicados pelo governo teriam
mandato de 2 anos com uma recondução e os membros eleitos diretamente pela
conferência e os indicados pelas entidades eleitas na Conferência teriam
mandato de 2 anos mas sem direito a recondução.
5.4
Conferência
Nacional de Juventude. Com o objetivo de propor, discutir e elaborar um
plano de trabalho para a Secretaria Especial de Juventude e avaliar o trabalho
da mesma. Seria realizada bianualmente com etapas municipais e estaduais
Entendemos que para conquistar tudo aquilo que propomos neste documento
será preciso uma ampla articulação dos vários setores organizados que, hoje,
estão envolvidos com o tema de políticas públicas de juventude. Esta ampla
articulação passa, principalmente, por duas esferas:
A
esfera das organizações e movimentos juvenis, que precisam se articular
nacionalmente e definir consensualmente uma plataforma comum de políticas públicas
de juventude.
E,
a esfera das forças político-partidárias, organizadas no congresso nacional
através dos mandatos parlamentares, que precisam retomar a organização da
Frente Parlamentar por Políticas Públicas de Juventude.
Desde
a conquista da criação da Comissão Especial de Políticas Públicas para a
Juventude da Câmara dos Deputados, no início do ano de 2003, a Frente
Parlamentar não voltou a se reunir e a atuar no processo desencadeado pela
comissão.
Atualmente,
a Comissão Especial está na fase de conclusão dos seus trabalhos. O resultado
de todo o processo construído será a proposta de um ou mais instrumentos
legais que garantirão direitos à juventude. Justamente, neste momento, em que
projetos de lei passarão a tramitar no Congresso, é que se faz mais do que
necessário uma atuação da Frente Parlamentar por Políticas Públicas da
Juventude. Essa atuação em conjunto com a sociedade civil visaria articular os
consensos e a aprovação destes instrumentos, que são, hoje, muito importantes
para a consolidação dos direitos e o estabelecimento de uma política nacional
de juventude.
Portanto,
acreditamos que a efetivação dos direitos e das políticas públicas de
juventude passam pela rearticulação da Frente Parlamentar que, para a sua boa
atuação, precisa estabelecer um regulamento de funcionamento.
Conclusão
Tenho me empenhado em pautar o tema juventude não só no parlamento mas,
principalmente, na sociedade.
Esse
empenho é fruto da convicção de que ao se investir nos jovens, possibilitando
condições de desenvolvimento pleno, poderemos construir caminhos melhores e
mais justos para a humanidade.
No
decorrer dessa trajetória percebi que além de lutarmos para que o Estado
intervenha através de políticas públicas, é preciso provocar a juventude e
instigá-la à participar dos processos políticos no país. Pois, é o
interesse e a disposição dos jovens, agora, que irão pavimentar as
verdadeiras conquistas no futuro.
Por
isso, muitas das nossas iniciativas enquanto mandato, tem sido disponibilizar
instrumentos aos jovens propiciando condições para a sua auto organização e,
consequentemente, estimulando suas ações como atores sociais.
Esse
documento é mais uma contribuição construída coletivamente. Esperamos que
ele realmente contribua com as
discussões das organizações juvenis. O nosso objetivo é fomentar o debate e
a busca de propostas para a mudança concreta das precárias condições de vida
da juventude.
Cláudio Vignatti
Deputado Federal
(PT/SC)
Plano
de Trabalho da Comissão Eleitoral de Juventude
TEXTO
VI
O
presente documento apresenta as metas e o cronograma de atividades da Comissão
Eleitoral de Juventude. Esta comissão tem a finalidade de coordenar e articular
a participação da juventude no processo eleitoral da Frente Popular.
A
comissão atuará, principalmente, através da construção participativa do
programa de governo com as propostas dos jovens de Chapecó e o envolvimento
desses jovens nas atividades de campanha.
A
Comissão Eleitoral de Juventude foi formada a partir de uma reunião realizada
no dia 3 de julho (sábado) na sede do PT/Chapecó com filiados e simpatizantes
do partido.
A
reunião definiu um grupo de 13 pessoas para organizar a participação da
juventude no processo de campanha da frente popular.
Além
disso, a reunião encaminhou um prévio cronograma com 3 momentos: 1. Preparação
da comissão e inserção na campanha através da participação no planejamento
geral; 2. Reuniões com os diversos setores da juventude de Chapecó para a
construção de propostas para o programa de governo e envolvimento na campanha;
e 3. Lançamento das propostas de juventude do programa de governo da frente e
início da campanha da juventude nas ruas.
Considerações
sobre participação e importância da Juventude
A participação da
juventude no processo eleitoral é um fator preponderante para o desempenho das
candidaturas proporcionais e majoritária. O vigor e a disposição dos jovens
contamina os militantes e empolga a campanha.
Entretanto,
é preciso destacar, que a participação da juventude não deve se restringir a
uma contribuição somente nas “tarefas” mas, sobretudo, ampliar essa
contribuição para a elaboração e a tomada de decisões.
No
atual processo eleitoral, especificamente em Chapecó, em que os candidatos a
prefeito e vice-prefeito da nossa chapa têm um perfil jovem, o tema juventude
assume uma dimensão ainda maior. E, por isso, é importante que a coordenação
de campanha esteja constantemente preocupada em envolver os jovens.
Além
disso, a temática juventude tem sido pauta na conjuntura nacional como uma
preocupação estratégica para os governos. Pois, atualmente, vivemos o pico
populacional juvenil no país e essa relevante parcela da população (Brasil
– 20,07% e Chapecó 19,68% na faixa de 15 a 24 anos) tem sido a mais vulnerável
à exclusão social, sendo campeã nos índices de precárias condições de
vida.
Em
Chapecó tivemos, durante as administrações do governo democrático-popular,
avanços expressivos na melhoria das condições de vida de toda a população,
principalmente, através de políticas públicas nas áreas de educação, saúde,
agricultura, assistência social e habitação.
Contudo,
apesar dessas políticas atingirem, também, a população jovem, a demanda por
políticas públicas que atendam as necessidades específicas da juventude ainda
é significativa.
Portanto,
não só pela capacidade que a juventude tem de transformar positivamente a
campanha, mas, fundamentalmente, pela importância que o tema tem assumido na
conjuntura dos problemas sociais é que acreditamos que esta temática será um
diferencial não só nas eleições em Chapecó, mas em todo o país. Assim, o
PT deve priorizar a juventude, como tema, na sua pauta política e conseqüentemente
torna-la mais uma marca do modo petista de governar.
Metodologia
de Trabalho e Cronograma
A comissão eleitoral
de jovens definiu 3 etapas de trabalho:
1ª Etapa (Preparação)
·
Reunião de Organização Interna
(04/07)
-
Definição do plano de trabalho e cronograma de atividades da comissão.
·
Reunião de Nivelamento (05/07)
-
Preparação sobre o tema juventude: Definição e conceituação (O que é
juventude? O que são Políticas Públicas? Quais podem ser as políticas de
juventude?).
-
Elaboração de propostas para a discussão do Programa de Governo.
·
Reunião de sistematização de
dados sobre a juventude do município de Chapecó (06/07 e 10/07)
-
Elaboração de documento com síntese dos dados mais significativos sobre a
juventude do município.
·
Reunião plenária da juventude do
PT (à definir)
-
Apresentação de cronograma de reuniões setoriais com os jovens do município.
-
Apresentação da sistematização dos dados sobre a juventude de Chapecó.
-
Consulta sobre as propostas para discussão do Programa de Governo.
2ª Etapa (Construção do Programa de Governo)
·
Reuniões setoriais com a juventude
(12 a 22/07)
-
Discussão de propostas sobre a juventude para o Programa de Governo.
·
Reunião de sistematização das
propostas recolhidas para o Programa de Governo (23/07)
-
Conclusão de documento com os eixos e propostas sínteses sobre juventude do
Programa de Governo.
·
Atividade, da juventude da Frente
Popular, de lançamento das propostas de juventude (24/07)
3ª
Etapa (Campanha nas ruas)
·
Envolvimento de jovens nas
atividades de campanha
·
Realização de atividades de
visitas às residências
·
Realização de festas da juventude
·
Realização de panfletagens e
visitas aos bairros , escolas e faculdades e outras atividades
Considerações
Finais
A comissão eleitoral
de jovens apresentará dois documentos para a coordenação de campanha, são
eles:
1.
Documento com a síntese dos dados sobre a juventude de Chapecó, que
servirá de subsídio para a tática eleitoral e para os discursos de campanha
dos candidatos.
2.
Documento com as propostas para a discussão do Programa de Governo com a
juventude.
Anexo:
Roteiro da 1ª reunião para o envolvimento da juventude na campanha
Roteiro da reunião de construção do tema juventude no programa de
governo
·
apresentação (15’)
·
1ª) exposição (15’)
-
conjuntura nacional
-
conjuntura eleitoral
-
importância do tema juventude nas
eleições municipais
-
por que discutir juventude , hoje?
·
2ª) exposição (15’)
-
conjuntura local e do governo
municipal
-
o tema juventude no município:
programa; ações desenvolvidas; avalição (avanços e errros)
-
os desafios e as perspectivas
·
debate e análise coletiva (45’)
·
construção de propostas para a
resolução dos problemas dos jovens: a elaboração do programa de governo [O
que fazer? e Como fazer?] (60’)
-
informe sobre o processo geral de
elaboração do programa de governo (5’)
-
definição da metodologia específica
para a formulação das propostas para a juventude (30’)
A)
apresentação da proposta de
metodologia (5’)
1.
reunião de nivelamento: definição
e conceituação: O que é Juventude? e O que são Políticas Públicas?
2.
reunião de produção de diagnóstico
da situação dos jovens do município (dados e percepção)
3.
cosntrução dos
pressupostos/eixos/propostas sínteses
3.1
reuniões setoriais
3.2
sistematização
B)
debate e análise coletiva (20’)
·
encaminhamentos (prazos e responsáveis)
(10’)
·
avaliação e encerramento (15’)
[1]PNAD – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2001 (dados mais recentes disponibilizados)
[2]
Fonte:
PNAD 2001. Citado no texto de justificativa do Programa Primeiro Emprego,
MTB, 2003.