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Entrevista de Maria do Rosário - Jornal Brasil de Fato

 

São Paulo - Brasil - Quinta-feira, 25 de Agosto de 2005 -  ELEIÇÕES NO PT

 

Unidade para superar a crise

Nilton Viana da Redação
  
Um dos erros da atual gestão do PT foi se confundir com o governo, avalia a candidata à presidência do PT, a deputada federal Maria do Rosário (PT-RS). "Nós abrimos mão de construirmos uma reflexão com a sociedade, capaz de fazer o governo avançar mais do que poderia. A ausência de autonomia por parte do partido também comprometeu o governo ao longo do último período", afirma a militante petista, integrante da corrente Movimento PT. Apesar do desgaste da crise, Maria do Rosário lembra que o PT é importante para o povo brasileira e defende que é necessário somar forças nesse momento. "Precisamos de firmeza e de inteligência política, e de unidade na reconstrução do PT para superarmos essa crise, que é o que nós devemos ao povo brasileiro", diz.

Brasil de Fato - O governo Lula já ultrapassou 2 anos e meio de mandato. Qual a sua avalição?

Maria do Rosário - Bem, há uma diferença muito grande entre o Brasil que gostaríamos de ter construído ao longo desses dois anos e meio e aquilo que conseguimos fazer. Mas valorizamos as conquistas deste período. Isso é importante e temos que continuar lutando por mudanças que possam ampliar as características de superação das injustiças sociais que caracterizam o Brasil pelo governo Lula. Para isso, o PT é essencial; o partido deve afirmar o seu programa e levar essas propostas ao governo de acordo com o seu projeto. Penso que a referência para o próximo período deve ser a Carta ao Povo Brasileiro que o movimento social levou ao presidente Lula recentemente. É uma referência de programa que deve ser observado pelo nosso governo. Portanto, para sairmos dessa crise, ao contrário de cedermos às pressões dos setores que buscam uma ortodoxia ainda maior, é importante ouvirmos mais a sociedade e estabelecermos uma transição que atenda os interesses dessa sociedade.

BF - Quais são as conquistas importantes no governo?

Maria do Rosário - Vou citar alguns exemplos. Desde o tema da geração de empregos, no qual superamos a marca de 3 milhões de empregos. É importante que o país tenha conseguido estabelecer uma agenda internacional de respeito, há uma nova relação com a América Latina, África, revertendo as relações comerciais do período do Fernando Henrique Cardoso concentradas sobremaneria nos Estados Unidos. Outra conquista é ter barrado a Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Considero entre os avanços importantes, elementos inclusivos da população, por exemplo, na área educacional, políticas públicas eficazes e recuperar o próprio papel do Estado. Não é por acaso que tivemos uma diminuição muito grande dos setores terceirizados e o incremento de concursos públicos no último período.

BF - A senhora citou a Carta ao Povo Brasileiro. Uma das principais reivindicações desse documento é a imediata mudança na política econômica. Concorda?

Maria do Rosário - Considero que a política econômica não é uma religião e que os pressupostos da política coordenada pelo ministro Antônio Palocci (Fazenda) não possam ser vistos como dogmas inquestionáveis. Nós podemos apoiar o governo Lula, devemos apoiar o governo Lula e, ao mesmo tempo, buscar mudanças na política de juros, no superavit primário. Eu avalio que aos olhos de uma parcela considerável da população, a dívida social ficou à margem do foco principal do governo no último período ficou diminuida frente a gestão macroeconômica. Parece-me que não é contraditório apoiarmos o governo e apoiarmos mudanças na política econômica, porque a superação nesta crise atual está em conseguirmos avançar em uma transição para o próximo período, no qual o presidente Lula e nosso governo estabeleçam compromissos ainda mais firmes com esses movimentos que dão sustentação real ao governo na base da sociedade.

BF - Nesse cenário, como define qual deve ser o papel dos movimentos sociais?

Maria do Rosário - Eu considero que os movimentos sociais atuam com uma maturidade muito grande. Eles apontam as limitações do governo, mas sabem que uma derrota do presidente Lula e do PT podem significar um retrocesso e que as forças que foram derrotadas democraticamente no último período encontrem fôlego para retomar o seu projeto privatizante do Estado brasileiro e distancie ainda mais o Estado do atendimento das necessidades da população. A formulação de uma carta ao povo brasileiro é, em verdade, um contraponto àquela que foi apresentada na época da campanha eleitoral pelo presidente Lula; é uma estratégia bastante importante e, quando o movimento social se dispõe a ir para as ruas em defesa desse governo, denunciando a estratégia da direita, este movimento acumula para tensionar mudanças importantes no governo para o próximo período.

BF - Como avalia a grave crise que envolve hoje os principais dirigentes do PT?

Maria do Rosário - A minha avaliação é que uma parcela da direção do PT foi cooptada por estes esquemas tradicionais da política, esquemas que não foram inventados por eles, mas que nós não tínhamos o direito de nos misturar com estas situações. A crise que nós vivemos é a mais forte a atingir os setores populares e de esquerda no nosso país ao longo de muitos anos, mas nós precisamos acreditar e recuperar o PT porque esse resgate poderá construir uma perspectiva real de vitória para os setores populares, de superação dessa crise e de vitórias para os setores populares. Sem o PT, dificilmente esse governo poderá assumir um caráter ainda mais conseqüente no atendimento das reivindicações dos movimentos sociais e da sociedade em geral. Portanto, qualquer estratégia que seja de rompimento com o PT não contribui com o povo brasileiro, nesse momento.

BF - A senhora também concorda que o PT errou ao se transformar em governo?

Maria do Rosário - É lamentável que a direção do PT tenha abdicado do próprio programa do projeto partidário e da autonomia do partido na sua relação com o governo. Com essa postura, nós diminuimos inclusive a constribuição do partido ao governo. É claro que o partido deve fazer a sustentação ao governo. Mas a melhor sustentação ao governo é estabelecer uma mediação das posições possíveis ao governo com as posições reivindicadas pela sociedade. Ao diminuir o programa do partido ao que era possível o governo realizar em cada momento, nós abrimos mão de construirmos uma reflexão com a sociedade, capaz de fazer o governo avançar mais do que ele poderia. A ausência de autonomia por parte do partido também comprometeu o governo ao longo do último período.

BF - Como candidata à presidência do PT, quais são as suas propostas concretas para mudar a situação do partido?

Maria do Rosário - O PT é um partido com uma importância muito grande para o povo brasileiro. Ele conseguiu imprimir na vida política nacional valores e padrões tanto do ponto de vista ético quanto da organização política muito relevantes que não podem ser desvalorizados. Portanto, defender o PT é uma tarefa essencial da democracia brasileira. O nosso programa de atuação com a chapa Movimento PT propõe um partido de debate, um partido no qual a unidade é construída a partir do debate político franco, fraterno e firme. Um partido que recupere o debate político como parte da sua essência e da sua vivência política. Um partido no qual nós não precisamos apenas retomar e construir uma nova maioria, mas onde se construa e retome valores democráticos, valores da democracia partidária. Portanto, um partido com equilíbrio entre todas as forças políticas em que não exista um campo majoritário em caráter permanente, mas onde maioria e minoria sejam mediadas pela opinião política a cada momento. E, onde todos, independentemente da posição que estejamos no resultado dessa eleição, tenhamos tarefas a desempenhar na direção do partido.

BF - Como deve ser a atuação de quem ganhar a eleição no partido?

Maria do Rosário - Quem ganhar essas eleições no PT deve chamar os demais a operar e a fazer um programa para o partido de revalorização de suas instâncias, de superação da lógica que substituiu a instância partidária pelas tendências. As tendências têm importante tarefa no PT como formuladoras da política, mas não devem substituir as instâncias partidárias, que são uma mesa onde todas as tendências, grupos de pessoas devem estar sentadas para construirem a unidade de atuação do PT e a formulação do seu projeto político.

BF - É possível resgatar a participação da militância?

Maria do Rosário - Acho que podemos ter mudanças no estatuto do partido que resgatem o papel dos encontros partidários, um calendário de luta, as bandeiras histórias e, especialmente, o vínculo do PT com os movimentos sociais. O PT pode e deve ser um partido de governo e deve ser um partido vinculado aos movimentos populares. O PT parou de formar quadros, deixou de formar quadros na exata proporção em que nós nos afastamos dos movimentos sociais. Não é na institucionalidade ou nos governos que nós formamos quadros dirigentes para o Brasil. Os nossos quadros são formados no movimento popular, na luta sindical. Mas existem novas lutas que, no PT, devem ter valor idêntico, que é o tema de gênero, que trabalha a questão da igualdade e da diversidade, o tema da orientação sexual, da cultura, da organização da comunidade, trazendo valores históricos do povo negro, das comunidades indígenas, da luta ambiental, da sustentabilidade. São questões da nossa época e eu acredito realmente que são formadoras de uma nova cultura política no Brasil e que o PT deve estar atento.

BF - Ainda sobre o governo. Quais são as medidas que o Lula deve tomar de imediato para mudar completamente o perfil de sua gestão?

Maria do Rosário - O governo deve se preparar e apresentar um orçamento para o próximo ano que responda às necessidades da população brasileira e amplie seu curso no atendimento às reivindicações do movimento popular e social. Preocupa-me que no orçamento do próximo ano já existam anúncios de corte de recursos nas áreas do desenvolvimento econômico e na área social. Essa é uma medida imediata. Acho que o PT deve se somar à sociedade brasileira para que a agenda de superação da crise não seja ocupada pela orientação ortodoxa da economia. Quem vai superar essa crise é o povo, unido ao seu governo. O PT deve abrir o debate sobre menos autonomia para o Banco Central (BC), porque tentam impôla embora o projeto da autonomia do BC mesmo não tenha sido votado. Hoje, temos uma política monetária quase que autônoma dos interesses do povo brasileiro e do nosso governo. E acho que a reforma política é essencial.

BF - As elites querem derrubar o governo Lula ou estão satisfeitas com ele?

Maria do Rosário - As elites não têm uma única estratégia para derrotar o povo brasileiro. Elas testam suas idéias, fazem pesquisas sobre isso. E quando vêem que o impeachment mais cheira golpe e que o povo não aceitaria, mudam rapidamente as suas estratégias e são capazes e com grande agilidade de retomar a perspectiva de fazer Lula sangrar, o PT se desgatar. O que nos indigna é que muitos companheiros do PT, da direção petista, tenham dado uma mãozinha para esses setores. Precisamos de firmeza e de inteligência política, e de unidade na reconstrução do PT para superarmos essa crise, que é o que nós devemos ao povo brasileiro. Eu acho que esse partido conseguiu conjugar socialismo e liberdade, socialismo e democracia. Portanto, ele merece todo o nosso esforço no seu resgate. E por isso, todos nós devemos saber que somos importantes para o PT, mas especialmente que o PT é mais importante para as nossas vidas e para o povo brasileiro.

Quem é Maria do Rosário:

Formada em Pedagogia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Maria do Rosário nasceu em Veranópolis (RS) e tem 39 anos. Iniciou sua militância no movimento estudantil secundarista na década de 1980. Foi eleita vereadora de Porto Alegre, em 1992 e em 1996. Em 1998, foi eleita deputada estadual e, em 2002, deputada federal. Na Câmara dos Deputados coordena a Frente Parlamentar em Defesa da Criança e do Adolescente, é também coordenadora do Núcleo de Mulheres do PT e representante do Congresso Nacional na Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos.

 

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